Emmys 2019: acertos e erros da lista de indicados

Os indicados aos Emmys (veja aqui), popularmente conhecido como Oscar da TV, foram anunciados há alguns dias. Comentar a lista faz parte de uma tradição. Porém, sempre que uma premiação frustra as nossas expectativas surge aquele questionamento: será que ainda é relevante? É muito possível que seja para a indústria, a qual certamente precisa de …

‘Mudbound – Lágrimas sobre o Rio Mississipi’ é um épico poderoso

Ambientado nos anos 40, é chover no molhado dizer que a trama narrada em Lágrimas Sobre o Rio Mississipi ressoa até hoje. A trágica e violenta história de negros que têm suas vidas arruinadas por causa do racismo está repleta de exemplos na história americana (e mundial), inclusive ganhando novos capítulos como a recente tensão criada pela supremacia branca na cidade de Charlottesville há alguns meses. Lágrimas Sobre o Rio Mississipi não fica alheio e nos faz refletir essa questão da humanidade que parece longe de ser superada.

Escrito por Virgil Williams e Dee Rees a partir do romance da escritora Hillary Jordan, Lágrimas Sobre o Rio Mississipi conta a história de duas famílias, os McAllans e os Jacksons. Os McAllans são uma família branca que viviam muito bem até resolverem comprar a fazenda para a qual os Jacksons, uma família negra, trabalhavam enquanto esperavam a oportunidade de ter a própria terra. Até que o conflito da Segunda Guerra Mundial atinge as duas famílias quando Jamie McAllan (Garred Hedlund) e Ronsel Jackson (Jason Mitchell) são convocados pelo exército.

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‘Voyeur’ narra bastidores de livro polêmico escrito por Gay Talese

Mesmo o mais experiente e condecorado repórter se sente inseguro em algum ponto da história que está contando. Faz parte do que é ser jornalista. E conviver com essa insegurança é o que dá um senso de preocupação de passar por todos os pontos de checagem: ter mais de uma fonte para confirmar uma história, investigar registros públicos, pesquisas em outros meios para confirmar informações, e outras técnicas. Tudo isso para devolver ao repórter uma segurança e um controle que se perdem nesse processo.

Gay Talese é um desses jornalistas investigativos que mais podem ensinar sobre isso. Seu livro “Honra Teu Pai” (1971), um livro-reportagem que relata sobre a máfia por quem observou de dentro, estando infiltrado, como as coisas aconteciam, é sempre lembrado quando se pensa em seu nome (e até hoje obrigatório para qualquer estudante da área). Em seu último livro, “O Voyeur” (2016), sua reputação foi em parte manchada ao confiar em Gerald Foos, o auto-intitulado Voyeur, que procurou Gay Talese na década de 80 para contar a sua história (ou expor sua obsessão) de observar seus hóspedes durante as décadas em que foi dono de um motel nos Estados Unidos.

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‘Easy’ trata com maturidade questões da vida moderna em 2ª temporada

É irônico uma série que narra as crônicas do cotidiano se intitular como Easy (“fácil”, traduzindo para o Português). O que se descobre acompanhando os episódios, já disponíveis na Netflix Brasil, é que não há nada de fácil nas vidas que acompanhamos, desde as tentativas de um casal para manterem o casamento aquecido após tantos anos juntos, passando por uma jovem que ganha a vida como garota de programa, à mulher de 37 anos que terminou o namoro e vê as chances de engravidar e ter um filho cada vez mais remotas.

O que mais impressiona no roteiro de Joe Swanberg, criador e também responsável pela direção de todos os episódios, é o nível de maturidade com que ele trata esses e outras temas, narrados em forma de crônica como se fosse uma série antológica a qual não precisa necessariamente de um contexto que ligue os episódios. Ocasionalmente, alguns personagens (e histórias) vistos na 1ª temporada retornam (leia mais aqui), mas cada episódio tem vida própria e trata de certas questões do cotidiano com maturidade, algo que por vezes sentimos falta na televisão.

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Em 3ª temporada, ‘Narcos’ provoca um soco no estômago tão forte quanto nas anteriores

Desde que a segunda temporada de Narcos acabou, pondo fim à trajetória de Pablo Escobar, nunca foi uma preocupação para mim questionar como a série iria retornar para a 3ª temporada sem as presenças de Wagner Moura ou Boyd Holbrook, o agente Steve Murphy e que se aposenta logo após o fim da caçada. Sabendo que Narcos tem uma trama que a permite continuar sem se prender a personagens (e atores), contar apenas com o retorno do agente Javier Peña (o ótimo Pedro Pascal) já era um sinal positivo para agora se permitir ir mais adiante no encalço do cartel de Cali, ainda na Colômbia.

A principal virtude dessa nova temporada da série da Netflix é entender que não precisa perder tempo apresentando a maioria dos personagens que já conhecemos, além também de não se prender a passar por toda a trajetória do cartel de Cali e seus integrantes quando economiza tempo ao trazer uma capa da revista Time que, com a ajuda da narração em off de Peña, faz-se compreensível que o cartel de Cali era uma organização muito mais robusta e complexa do que a de Medellín. E por isso Narcos acerta de antemão ao decidir focar nas frustrações de Peña, e do DEA.

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