Tarantino faz retrato vibrante e melancólico da indústria em Era Uma Vez Em… Hollywood

Desde que Era Uma Vez Em…Hollywood foi anunciado por Tarantino como o seu nono filme, o diretor compilou uma lista de dez longas-metragens para os fãs e mais curiosos assistirem antes de ver seu novo trabalho, na tentativa de preparar (ou educar) os espectadores para o que pretendia contar. Todas eram obras entre as décadas de 50 e 60, transitando entre duas eras que em alguns anos se transformariam em um abismo. No final de 1969, a Hollywood que o mundo conhecia não seria mais a mesma. Começaria, assim, o movimento da Nova Hollywood e de filmes independentes, lançando ao estrelato nomes como John Cassavetes, Francis Ford Coppola, Robert Alltman, Martin Scorsese e Monte Hellman (só para citar alguns nomes). Há um evento que lança essa nova geração: o brutal assassinato da atriz em ascensão da época, Sharon Tate, cometido pelo clã de Charles Manson.

Essa é uma das prerrogativas de Quentin Tarantino para Era Uma Vez Em… Hollywood, época em que a cidade (e o mundo) vivia um clima paz e amor invadida pela cultura hippie. Dessa maneira, o diretor cria duas narrativas paralelas onde duas estrelas de Hollywood vivem momentos distintos. Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é o personagem central que nos guia nessa trama e fez grande sucesso em uma série de TV. Seu sonho de estrelar filmes na tela maior o levaram a tentar uma carreira no cinema, que fracassou – junto com o seu dublê e fiel escudeiro Cliff Booth (Brad Pitt). Antes protagonista, Rick vive de pequenos papéis de vilão e se torna um mero coadjuvante de estrelas jovens que estão conquistando um espaço que antes era seu. Ao mesmo tempo, há uma nova estrela em ascensão, Sharon Tate (Margot Robbie), casada com o diretor Roman Polanski e vivendo o conto de fadas que todo artista deseja experimentar em Hollywood.

Enquanto Tarantino nos leva através de passeios de carro por uma Hollywood da sua imaginação (ou de como ele se lembra tão vividamente), Era Uma Vez em… Hollywood peca por muitos excessos que tornam o filme longo e muitas vezes sem ritmo. Não é uma obra tarantinesca no sentido da violência. Entretanto, o tema vingança aparece sutilmente. Sem entregar qualquer spoiler, apenas a sequência final de Era Uma Vez Em… Hollywood se encaixa perfeitamente na trajetória dos filmes de Tarantino, sendo a sua maneira de se vingar contra aqueles que mancharam com sangue e violência o conto de fadas que seus personagens e estrelas favoritos estavam vivendo. Tarantino nunca escondeu a sua paixão pelos filmes e pela indústria, sendo um diretor obcecado por deixar rastros em sua obra para serem dissecados pelos críticos. Exercício que ele próprio pratica quando deixa extensas referências espalhadas em cada quadro dos seus filmes.

Mais nostálgica do que qualquer outra obra de Quentin Tarantino, Era Uma Vez Em… Hollywood apresenta um diretor passeando por sua memória afetiva deixando dois sentimentos muito intensos pulsarem na tela: vibração e melancolia. O filme de Tarantino vibra quando nos coloca dentro da produção que era feita para o cinema e para TV ou quando passeamos pelas largas avenidas da cidade ouvindo rádio na companhia de Cliff, traduzindo para o espectador o quão encantado esse mundo é. Ao mesmo tempo o diretor expõe as fragilidades dos seus protagonistas, mostrando também o quão fácil o deslumbre pode representar o fim de um sonho ou da fama, seja por meio de uma tomada de decisão ruim, ou ser brutalmente morto, ou substituído porque a indústria não te quer mais e sua presença já não é imprescindível como antes).

Mesmo se envolvendo em polêmicas desnecessárias antes e após o lançamento, como a discussão com a filha de Bruce Lee ou a tentativa de estrear o filme no aniversário de 50 anos da morte de Sharon Tate, Quentin Tarantino demonstra neste novo trabalho a segurança que só a experiência dirigindo nove filmes desde o final da década de 80 lhe credenciaram para saber se arriscar e ser ele mesmo em uma indústria responsável por transformar a personalidade de qualquer pessoa que busque viver o conto de fadas na indústria hollywoodiana.

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