Telefilme da HBO, ‘O Mago das Mentiras’ faz retrato complacente de Bernie Madoff

O telefilme da HBO O Mago das Mentiras termina com uma pergunta que tem como intuito provocar o espectador, mas é justamente esse questionamento que expõe a fragilidade de um roteiro que busca incessantemente que o público se simpatize com a história de Bernie Madoff (aqui interpretado por Robert De Niro, em uma ótima performance), o ex-consultor financeiro responsável por ter aplicado o maior golpe econômico da história dos Estados Unidos. Talvez não exatamente simpatizar com a sua figura, mas com a família que foi destruída por seus atos.

Entretanto, o resultado disso é uma estratégia forçada do roteiro que, à medida que procura emoções na expressão sisuda e séria colocada por Robert De Niro ao longo do telefilme, chega à conclusão de que aquele homem é desprovido de qualquer remorso ou mágoa pelos atos que cometeu, justificando-os com uma pergunta que sai da sua própria boca ao questionar a jornalista do NY Times se ela o considerava um sociopata.

Mas não consigo comprar a ideia de O Mago das Mentiras de querer transformar Bernie Madoff e suas ações como atos de um sociopata. Mostrando-se culpado ao mesmo tempo que tenta justificar o que fez como uma forma de proteger sua família, é irônico acompanhar esses argumentos quando a sua forma de proteção seria o de não cometer e se envolver nos crimes que ele próprio se declara culpado. O diretor Barry Levinson nos força a acompanhar o declínio de uma das firmas mais respeitadas de consultoria financeira nos EUA ao mesmo tempo que a confiança do público, do governo e da mídia em Wall Street estava em baixa no estopim da crise de 2008.

Foto: Divulgação/HBO

O Mago das Mentiras deseja cumprir o objetivo de nos mostrar que Bernie Madoff não é exatamente esse gênio que foi capaz de burlar o sistema financeiro. Por um lado, o filme tem razão. Mas não exatamente pelo grau de inteligência de Madoff, mas sim por seu conhecimento interno sobre a forma como a CVM dos EUA operava já que Madoff foi um dos fundadores do órgão que regula o mercado por lá. Por outro, até 2008 nenhum governo tinha coragem de investigar as práticas ilegais das operações em Wall Street. E como uma passagem do filme menciona, se a CVM investigasse um dos artigos que comprovavam as atividades fraudulentas de Madoff, o caso teria sido descoberto muito antes.

Portanto, a não ser pelas boas performances de Robert De Niro e Michelle Pfeiffer (que interpreta Ruth Madoff, esposa de Bernie), O Mago das Mentiras teria boas chances de ser ainda mais frágil e pouco importante do que naturalmente já é. Ainda que Barry Levinson e sua equipe de três roteiristas tenham tentado transmitir a mensagem da melhor maneira, baseados no livro escrito pela jornalista Diana Henriques (interpretada por ela mesma no telefilme). Por mais que O Mago das Mentiras tente “desmerecer” os atos de Madoff, no final não é sobre isso que a história se trata, mas sim sobre bilhões de dólares de investidores, gananciosos ou não, que foram desviados para o bem-estar seu e da própria família dele – e no meio do caminho muita gente que perdeu suas economias de toda uma vida.

Assista o trailer:

O Mago das Mentiras (The Wizard of Lies, 2017)
Direção: Barry Levinson
Roteiro: Sam Levinson, Samuel Baum e John Burnham Schwartz.
Elenco: Robert De Niro, Michelle Pfeiffer, Kristen Connolly, Hank Azaria, Nathan Darrow, Alessandro Nivola e Lily Rabe.
Duração: 133 minutos

[Crédito da Imagem: Divulgação/HBO]

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