Cinema

‘Terra Selvagem’ revela problemática importante e talento de um promissor diretor

Uma coisa irônica (talvez curiosa) aconteceu enquanto assisti Terra Selvagem. O filme me manteve tão envolvido que eu gostaria que o tempo de duração fosse maior. O longa não termina de forma abrupta e consegue fechar bem a história. Entretanto, cheguei ao final decepcionado por Terra Selvagem não ter investido mais na sua trama policial que investiga um crime horrível dentro de uma reserva indígena. Ao mesmo tempo, Terra Selvagem é um bom trabalho de estreia do promissor diretor Taylor Sheridan.

Conhecido pelos roteiros de Sicario e A Qualquer Custo (e também por ter atuado na série Sons of Anarchy), Sheridan dessa vez assume roteiro e direção para contar a história de um crime que choca a comunidade indígena americana na pequena reserva de Wind River, na inóspita Wyoming. Cory (Jeremy Renner) é um caçador que presta serviço aos locais. Atordoado e ainda vivendo o luto pela perda da filha mais velha, em um dia de trabalho que parecia normal ele encontra o corpo de Natalie (Kelsey Asbille) na neve com marcas violentas, que se perdeu após um encontro com o namorado Matt (Jon Bernthal) O caso, então, torna-se federal, com a agente do FBI Jane Banner (Elizabeth Olsen) ficando responsável pela investigação.

É justamente na dinâmica entre Cory e Jane que Terra Selvagem expõe a fragilidade do seu roteiro, compensando esse problema pelo fato de mais uma vez Sheridan trazer à tona questões relevantes que merecem ser debatidas e não estão sendo porque não é de interesse do governo americano. Se no filme À Qualquer Preço o ambiente era praticamente uma cidade-fantasma no interior do Texas que ainda vivia as consequências da crise econômica de 2009, Terra Selvagem norteia o espectador a pensar sobre o abandono da política americana com a sua comunidade indígena, estando totalmente abandonada e largada à própria sorte.

Os planos abertos de Taylor Sheridan, auxiliado pela boa fotografia de Ben Richardson (Indomável Sonhadora), além do destque também da trilha de Nick Cave e Warren Ellis que aposta em acordes sensíveis de violão e em sussurros nas sequências em meio às nevascas que estabelecem um bom clima de suspense, assim beneficiando o filme ao transmitir essa sensação de abandono. Tanto que Corey diz em certo momento que “silêncio e uma porção de terra foram tudo o que os Estados Unidos deixaram para os índios”. E mesmo quando Terra Selvagem não consegue se aprofundar tanto na própria trama que construiu, o filme entrega cenas comoventes como aquela quando Corey e Jane visitam os pais da garota que foi morta, o que assusta a própria Jane que, vinda de uma cidade como Las Vegas, tem um choque de realidade ao perceber uma cultura tão forte e diferente da sua.

Terra Selvagem resolve o mistério do assassinato com certa rapidez e pouco trabalho policial mesmo de investigação. Talvez por querer chamar atenção para um outro fato, o de desaparecimentos de garotas como Natalie que sequer são investigados, Terra Selvagem mostra o futuro promissor que Taylor Sheridan tem pela frente. Seu filme tem boas ideias em relação à estrutura e à filmagem, como as duas cenas de quebra de expectativa durante uma batida policial que lembram o trabalho do diretor Jonathan Demme fez na sequência final de O Silêncio dos Inocentes. Esse é um nome que ainda ouviremos muito falar, pode anotar.

Assista o trailer:

Terra Selvagem (Wind River, 2017)
Direção: Taylor Sheridan
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Jon Bernthal, Kelsey Asbille e Gil Birmingham.
Duração: 106 minutos

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