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The Americans é a melhor série do momento que ninguém comenta

The Americans está longe de ter o buzz que Game of Thrones ou The Walking Dead conseguem ter. Primeiro porque talvez a trama não tenha o mesmo apelo que essas duas séries citadas. E segundo por conta mesmo da pouca divulgação que a emissora americana que exibe a série (FX) faz. Mas o canal que trouxe Sons of Anarchy e que exibe It’s Always Sunny in Philadelphia há mais de dez anos sabe que tem um show de enorme potencial e com uma base sólida de apreciadores – além de ser bastante aclamada pela crítica.

Essencialmente, The Americans é uma série sobre espionagem. Nadezhda (Keri Russell) e Mischa (Matthew Rhys) formam um casal de soviéticos que foram treinados para viverem nos Estados Unidos como Phillip e Elizabeth Jennings. Se antes era para ser apenas uma parceria arranjada que reforçaria o disfarce de ambos, em solo americano eles constituem uma real família com os filhos Henry (Keidrich Sellati) e Paige (Holly Taylor), enquanto coletam informações importantes para a KGB sobre os planos militares e estratégicos dos EUA.

A quarta temporada estreou recentemente no canal FX e, pouco a pouco, a trama que antes abordava as missões que eles planejavam no porão da casa onde vivem em um subúrbio fora de Washington (os episódios são filmados na Virgínia), The Americans passou a lidar muito mais com os problemas do disfarce ser questionado pela filha mais velha deles, Paige. Ao final da terceira temporada, a palavra “Americans” começou a ter múltiplos significados que pode se referir tanto a Elizabeth e Phillip quanto a Paige e Henry. Em relação ao casal, eles não são “americanos verdadeiros” pois as raízes do país onde eles nasceram e cresceram estão em cada um deles (ainda que à maneira de cada um). Ao contrário dos filhos, que nasceram nos Estados Unidos e crescem com a cultura local onde convivem com o Cristianismo (Paige) e videogames e computadores (Henry).

Cotidianos que se tornam frequentes na narrativa da série uma vez que a história se desenvolveu de tal maneira que tornou-se algo sofisticado entre a espionagem (interessante como os disfarces que cada um dos dois usam vão mudando com o tempo e também se renovando) e o drama familiar quando Phillip e Elizabeth se vêem mais e mais sobrecarregados em gerenciar e entender os seus filhos entrando na adolescência, se misturar no meio de todos enquanto lidam juntos com o trabalho na agência de viagens e os pedidos da Central (KGB) cada vez mais complexos que começam a envolvê-los em uma rede de conspiração que afunda ambos os países, EUA e União Soviética, em uma corrida para saber quem tem as melhores armas e a melhor tecnologia.

Ou simplesmente descobrir os planos do rival e o que um e outro estão construindo para surpreender e demonstrarem que são mais fortes.

Chocante e crua

Além de ser uma série sobre espionagem que mistura drama familiar, The Americans também é um programa com uma trama romântica. Afinal de contas, Phillip e Elizabeth não nos deixa esquecer por nenhum momento que eles são um casal e que um fará o que for preciso pelo outro. Muito dessa boa química que há em cena é um mérito dos atores Keri Russell e Matthew Rhys, que também são casados na vida real. Mas The Americans também é uma série violenta e, às vezes, até chocante.

Elizabeth e Phillip são dois soviéticos treinados para serem espiões e viverem como americanos. | Foto: Divulgação/FX
Elizabeth e Phillip são dois soviéticos treinados para serem espiões e viverem como americanos. | Foto: Divulgação/FX

Nunca é uma violência que é liberada com o intuito de horrorizar. É mais como uma violência silenciosa, psicológica. Como no episódio de duas semanas atrás quando a série chocou os telespectadores com a morte de um personagem importante. E a sequência foi crua e de uma agonia tão forte que é difícil de colocar em palavras para explicar. Não só a história deu um avanço importante com esse fato como também desencadeará uma série de tramas novas que virão como consequências e poderão mudar o curso da narrativa.

Obviamente, sabemos como a história termina uma vez que a União Soviética chegou ao fim em 1991. No entanto, The Americans não segue tão de perto os eventos históricos – apesar da série ser escrita por um ex-agente da CIA (Joe Weisberg, leia o perfil que o NY Times escreveu sobre ele em 2013) que acompanhou de perto a investigação que resultou justamente na operação Ghost Stories do FBI, responsável por deportar russos que tinham sido espiões e que ainda viviam nos Estados Unidos.

O lado sombrio de The Americans

Essa violência está longe de ser o lado mais sombrio de The Americans. Isso está muito mais focado na questão geopolítica e histórica na qual a história se baseia. A série se passa durante a Guerra Fria e não é um conflito que abrange apenas União Soviética e Estados Unidos, mas também outros países menores (El Salvador, Afeganistão, por exemplo) que sofreram por estarem no fogo cruzado do conflito.

Em um episódio da quarta temporada, o irmão de um importante personagem é morto em combate no Afeganistão. Quando ele vai ao enterro, o pai conta que lutou contra os nazistas e que os irmãos que morreram na guerra eram enterrados com honras militares. Mas não o seu filho, cuja morte teria que estar no lado escuro da história porque ninguém sabe exatamente por qual guerra eles estão lutando.

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The Americans mistura drama familiar e espionagem para construir uma boa trama. | Foto: Divulgação/FX

É uma passagem importante que ajuda também a exemplificar um outro evento histórico que acontece em El Salvador quando a política de ódio e combate ao Comunismo levantada por Ronald Reagan ajuda a treinar e armar milicianos para lutarem contra os soviéticos. E isso acaba desencadeando uma série de ataques terroristas que ocorrem no país.

The Americans não é uma série realista ao extremo e não está preocupada exclusivamente com os eventos históricos (como Narcos, que se utiliza até de um tom documental para desenvolver os episódios). Porém, a história se debruça sim sobre os acontecimentos da Guerra Fria com o intuito de narrar os diversos momentos ruins que marcaram aqueles anos 80.

Mentiras que ferem

No perfil que o NY Times escreveu sobre Joe Weisberg, ainda em 2013 quando a série foi lançada, ele conta que o tempo que ele permaneceu na CIA “foi bastante doloroso porque, fundamentalmente, as mentiras estão no centro de qualquer relacionamento. Eu mentia para todos os meus amigos e familiares. Todo dia. Eu contava vinte mentiras ou mais cada dia. Nas primeiras duas semanas era muito difícil. Depois você se acostuma e acho que isso acontece com todo mundo”, contou ele.

Entretanto, chega um momento em que as mentiras não fazem mais sentido e é impossível esconder a verdade por mais tempo. Após tantas desconfianças, Elizabeth e Phillip contam para Paige sobre um pouco do que eles são. Não chegam a entrar em muitos detalhes, mas acabam cedendo aos pedidos da filha mais velha por respostas. Coincide que a Central quer recrutá-la para fazer parte do programa de Segunda Geração dos infiltrados (como são chamados os agentes soviéticos treinados para viverem nos Estados Unidos). Um projeto ambicioso que toma caminhos irreversíveis.

Por mais quanto tempo será que eles conseguirão manter os seus disfarces? | Foto: Divulgação/FX
Por mais quanto tempo será que eles conseguirão manter os seus disfarces? | Foto: Divulgação/FX

Como eles vivem sob uma constante teia de mentiras, logo começa a crescer também a desconfiança deles em relação à própria KGB, sobre aquilo que eles pedem e o que eles julgam ser necessários. É bom deixar claro que The Americans claramente não deixa nenhum fio de esperança para a família Jennings ou para qualquer pessoa do círculo social deles – e isso está mais e mais em evidência nesta quarta temporada. Cada um dos personagens vive o momento, decidindo ou não contar mais uma mentira ou matar ou não alguém em troca de informação – e isso vale para os dois lados da história.

O importante é que The Americans não cansa de nos surpreender com as decisões que toma para continuar contando essa história sabendo exatamente para onde levar a trama. E é impressionante como poucas pessoas (ou sequer ninguém) anda falando dessa série por aí.

Assista o trailer da 4ª temporada:
Crédito da Imagem: Divulgação/FX

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