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'The Crown' combina intrigas políticas e da realeza britânica em superprodução da Netflix

Percorrer seis décadas por temporada do reinado de Elizabeth II. Essa é a ambição da série The Crown, que estreou há algumas semanas na Netflix, que vai mudar o elenco a cada ano com o intuito de adaptar as idades de cada um. Mas isso é algo para o futuro. Refletindo sobre o primeiro ano, dá pra dizer que The Crown substitui com louvor o espaço deixado por Downton Abbey, tratando de ser uma série que acompanha o luxo e os dilemas da família real, mas também se envolve em assuntos políticos que impactaram diretamente a sociedade britânica – e o mundo, por que não?

Com todos os dez episódios escritos pelo respeitado e competente roteirista Peter Morgan (A Rainha, Frost/Nixon, O Último Rei da Escócia), The Crown se caracteriza por sua riqueza de detalhes. É verdade que muitas vezes esse detalhismo é embalado por dúvidas. Afinal, tudo o que Peter Morgan está relatando aconteceu mesmo? E se aconteceu, foi com essa intensidade? Ou não foi para tanto e ele está apenas aumentando para tornar a série e a história mais cativantes?

São questionamentos presentes em The Crown – mas não incomoda. Mesmo porque a série é claramente uma obra ficcional. A primeira década começa pela morte do Rei George. Elizabeth, a filha mais velha, é a próxima na linha sucessória e assume como Rainha. Logo suas responsabilidades aumentam, a pressão sob seus ombros às vezes beira o insuportável e ela precisa tomar certas decisões que contrariam o bem-estar da sua família em troca do dever de tornar a Coroa forte e cuja barreira não deve ser quebrada por dramas familiares.

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Interpretada de forma competente por Claire Foy, a Rainha Elizabeth aprende muitas maneiras de como responder e se posicionar em seu convívio com o então Primeiro-Ministro Winston Churchill (John Lithgow, em atuação extraordinária e que merece ganhar todos os prêmios do ano que vem), um homem orgulhoso e destemido, mas também gentil e corajoso. Virtudes e defeitos que fazem o povo admirá-lo, mas por outro lado coloca o partido Conservador em uma encruzilhada porque vê a necessidade de substituí-lo por alguém mais jovem e com ideias modernas.

Enquanto lida com crises políticas tanto internas (disputas dentro do partido e segredos envolvendo os líderes do governo) quanto externas (descontentamento das colônias que desejam se separar da Inglaterra e instabilidades em outras regiões), Elizabeth também busca equilibrar suas duas vidas já que ambas nunca estão perfeitamente alinhadas porque ela vive em conflito com seus deveres, como Rainha (atender os pedidos da irmã ou da mãe) e como mulher (seu relacionamento conturbado com seu marido Philip, muito bem interpretado por Matt Smith).

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Também não é fácil para os outros que estão à sua volta entenderem isso. Peter Morgan pinta um retrato humano da monarca que, mesmo com dificuldades, transita entre as duas vidas de maneira inteligente e contendo alguns escândalos para que a Coroa não se torne o foco de fofocas e ataques – o que, como se sabe, tornou-se praticamente impossível com o passar dos anos. The Crown termina a temporada olhando justamente para esse futuro incerto, onde a Rainha terá que se provar várias outras vezes para continuar sendo respeitada.

Além de todo o luxo do figurino, da bem trabalhada direção de arte e a lindíssima fotografia, The Crown usa em sua narrativa o mesmo conceito de Narcos ao dar um tom documental e didático sobre o que está acontecendo, as implicações e efeitos que determinadas crises podem causar no relacionamento da Coroa com o governo (e vice-versa). The Crown é uma belíssima série, talvez uma das melhores que eu tenha visto nesse ano. Mais um tiro certeiro dado pela Netflix.

Assista o trailer:

[Crédito da Imagem: Divulgação/Netflix]