Mal estreou e The Night Of se transformou rapidamente em um sucesso de público e também de crítica. A nova série limitada exibida pelo canal HBO no horário vago deixado por Game of Thrones se transformou surpreendentemente em sucesso do verão americano por merecimento, mas principalmente pelo fato de não ter muita concorrência no momento (lembrando que a aguardada nova temporada de Mr. Robot estreia nesta semana ainda).

Adaptada da série britânica Criminal Justice (criada por Peter Moffati), The Night Of deveria marcar o retorno do ator James Gandolfini às séries após o sucesso de Família Soprano e de ter ajudado a colocar a HBO no lugar de respeito e de absoluta admiração. No entanto, com a sua morte precoce em 2013, The Night Of ficou no limbo por alguns anos até finalmente ser retomada por Richard Price (roteirista de A Cor do Dinheiro, de Scorsese com Paul Newman e Tom Cruise, e autor de best-sellers criminais) e Steve Zaillian (diretor dos episódios mas conhecido por seu trabalho como roteirista em filmes como A Lista de Schindler, Gangues de Nova York, Os Homens que não Amavam as Mulheres, entre outros).

A série acompanha o paquistanês nascido nos Estados Unidos Nasir “Naz” Khan, que sai escondido para curtir a noite novaiorquina até que seu plano foge completamente do controle quando conhece Andrea. Convencido de que a faria companhia naquela noite, ambos bebem um pouco, usam drogas e Naz apaga sem se lembrar o que aconteceu. Quando ele acorda, a bonita garota que o tinha feito viver uma noite maravilhosa até aquele instante está morta.

A partir daí, se o episódio já estava tenso o suficiente criando expectativa sobre os acontecimentos e estabelecendo a dinâmica da sua narrativa, The Night Of passa a explorar o que leva os policiais a descobrirem e apontarem Naz como o assassino. Para nós, espectadores, tudo fica no campo da especulação porque esse é o jogo que The Night Of nos convida para jogar pois temos pistas para acreditar na boa índole de Naz. Os policiais, ao contrário, acreditam que o rapaz é o único culpado. E aí fica o questionamento: será que Naz cometeu o crime?

Para o advogado Jack Stone (interpretado por John Turturro, que disse em entrevista que não mudou em nada o trabalho que Gandolfini tinha feito para o personagem até antes de falecer), Naz pode não ser o culpado e está sendo vítima da própria incompetência dos sistemas criminal e policial americano. Turturro aparece apenas nos dez minutos finais do episódio (de quase uma hora e meia), e eleva a série a um patamar de complexidade apenas com algumas linhas de fala e por uma condição que lhe impossibilita de calçar sapatos fechados, transformando o mero advogado em uma figura já fascinante.

John Turturro ocupa o lugar que seria de James Gandolfini, que morreu em 2013. | Foto: Reprodução
John Turturro herdou o papel que era de James Gandolfini, morto em 2013. | Foto: Reprodução

Por muitos momentos parece que estamos diante de cenas que ocorrem normalmente no Brasil, como policiais tentando fazer vistas grossas para um jovem que dirige bêbado porque o turno já acabou, outro com corpo mole para preencher a papelada do caso e o detetive que relembra a todo momento que Naz deve responder as perguntas de forma objetiva ao invés de ser monossilábico porque o júri não gosta desse tipo de gente. Ele até diz “esse tipo de comportamento é condenação certa”.

No entanto, a gente sabe que essas práticas não são exclusivas do Brasil. The Night Of estreia em um momento muito interessante na TV americana depois da série-documental Making a Murderer (Netflix) e The People v. O.J Simpson (FX) narrarem as falhas de dois julgamentos completamente diferentes, mas que juntos colocaram as burocracias do sistema criminal americano no centro da discussão e que chamaram muito a atenção do público (isso ajuda a explicar os bons números de audiência que The Night Of obteve em sua estreia).

Enquanto tanto se fala em crise na HBO por conta de projetos que o canal depositou tanta confiança e que acabaram se transformando em fiascos (Vinyl, cancelada após ter sido renovada, e True Detective que ninguém sabe para onde vai), The Night Of estreou até sem muito alarde e conquistou rapidamente o público (relembrando também que a HBO não esqueceu a sua forma de fazer boas séries o qual lhe deu o reconhecimento de ter transformado a TV).

The Night Of não somente é bem escrita por Richard Price como também bem dirigida por Zaillian, que enquadra alguns rostos de personagens que podem muito bem se transformarem em suspeitos (ou não) à medida que a história avançar.

[Crédito da Imagem: Divulgação/HBO]

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