Venho desde o ano passado escrevendo resenhas sobre as temporadas de The Wire (leia aqui sobre a primeira, segunda e terceira) e terminei há alguns dias de assistir a quarta temporada. Nesses meus artigos é fácil se deparar com frases do tipo “a melhor temporada da série”. E me parece que é uma constante falar assim, porque a quarta temporada é mais uma prova da relevância que The Wire tem, mesmo tendo sido exibida pela HBO há onze anos.

Trazendo a realidade das escolas e do ensino público de Baltimore para o centro da narrativa, The Wire se aproveita da própria complexidade de um sistema falido para acompanhar os dramas de adolescentes que não conseguem ver a escola como algo atrativo. Sendo, então, facilmente corrompidas e treinadas para desde cedo frequentarem as esquinas da cidade para venderem drogas, a realidade delas é comum a muitas outras que vivem em situação de risco, como nas favelas no Brasil ou qualquer outro conjunto habitacional de uma grande cidade que enfrenta problema desse nível.

Essa foi uma temporada em que mais consegui encontrar relevância com o mundo atual do que as anteriores, talvez pela força do tema e porque entre 2006 e 2017 não há assim muitas diferenças. Como desafio para quem assiste The Wire, é importante saber como dar conta de todos os personagens que estão envolvidos na narrativa. E todos, absolutamente todos, têm a sua devida importância.

Se estávamos acostumados com as histórias de McNulty, Freamon, Bunk ou Daniels, The Wire começa a temporada mais uma vez expandindo uma narrativa que já é por si só extensa. Mas é impressionante como os roteiros de David Simon (criador da série) e de Ed Burns (showrunner juntamente com Simon na época) conseguem amarrar tão bem tudo o que acontece a tal ponto que dificulta recuperar o fôlego porque, ao falar de crianças, a série cativa e nos leva a uma jornada que nos importamos com elas – o que torna a tragicidade dos seus arcos narrativos difíceis de serem esquecidos após o final da temporada.

Foto: Divulgação/HBO

A Política a desserviço da Educação

Existem duas Baltimore: a do Centro/Leste, de restaurantes chiques e prédios que imitam as grandes metrópoles, e a da região Oeste, sombria e abandonada. The Wire pinta a ironia de corpos abandonados que se transformam em zumbis nessa área sem lei, como os próprios garotos brincam com as lendas que ouvem, de forma inteligente logo nos primeiros episódios. Afinal de contas, olhar para as esquinas e para os prédios dessa parte de Baltimore é como estar mesmo assistindo um episódio de The Walking Dead (um que seja bom, por favor).

The Wire exibe o cotidiano de férias das crianças antes das aulas começarem anunciando que nos levará a uma jornada de estudo de personagem como cansou de fazer anteriormente. E, claro, sem questionar decidimos mais uma vez seguir o que a série tem para nos mostrar. E é tanta coisa que eu mal sei por onde começar, por isso vou seguir os fatos que The Wire apresenta porque a fase de transição política da história, entre os momentos finais da disputa pelo cargo e a vitória do candidato Thomas Carcetti, são cruciais para entender como a Política se envolve diretamente na forma como a Educação é aplicada.

Nenhuma novidade nisso, é certo. Mesmo porque, uma vez que os políticos brigam entre eles na disputa de cargos e de orçamentos para mostrarem quem tem mais força na queda de braço, uma boa educação nas escolas seria suficiente para mudar e muito o destino trágico de muitas crianças. Como diz o coronel Cedric Daniels, ao entrar na escola que estudou, “tive uma boa educação aqui”. E isso é suficiente para compreendermos que pelo fato da boa escola que frequentou, pública como é o cenário que The Wire mostra, ele não se viu obrigado a ir para as esquinar ganhar dinheiro para o tráfico e conseguiu escolher por uma carreira e uma vida diferente.

Foto: Divulgação/HBO

Como recorte disso acompanhamos as trajetórias de Michael Lee (Tristan Mack Wilds), Namond Brice (Julito McCullum), Duquan Weems (Jermaine Crawford) e Randy Wagstaff (Maestro Harrell). Todos novatos como atores e nascidos e criados na cidade de Baltimore, isso ajuda a conferir uma verossimilhança que é uma característica da série e do próprio tom documental que mais uma vez marca também essa quarta temporada. Cada um deles é contextualizado com um drama particular, já que os perfis variam desde um que é adotado a outro que é filho de um importante traficante que está preso. O que conecta os quatro é a realidade similar a qual estão inseridos, a falta de perspectivas em relação ao futuro e a ausência de referências para trilharem caminhos diferentes.

Filmes como Escritores da Liberdade (2007) e A Onda (2008) surgem como boas lembranças sobre a relação do ensino público e as crianças, tendo sempre professores que funcionam como elos importantes entre os dois lados. Nessa temporada em The Wire quem faz o papel da professora Erin Gruwell que a Hilary Swank interpreta em Escritores da Liberdade é o ex-detetive Roland Pryzbylewski, cujas tentativas de entender o perfil delas o leva a conhecê-las melhor e a inclusive criar laços afetivos, conseguindo ultrapassar as barreiras que elas tendem a criar que funcionam como mecanismos de defesas para esconder as vulnerabilidades e o lado infantil que precisam aprender depressa como não transparecer.

O único caminho que resta

À medida que a temporada avança vai ficando claro que as crianças não terão muitas escolhas pela frente que não seja a única que se apresenta para elas, que reduzirão o tempo de suas vidas. Essa é a parte trágica que The Wire vai pontuando a cada episódio, quando mostra o cotidiano de uma aula experimental que vai dando resultados até ser fechada por falta de verba, professores se preocupando com os próprios cargos do que com o ensino e verbas retiradas da educação para suprir a deficiência da polícia em resolver crimes.

Se juntar ao tráfico não é só uma questão de ser atrativo, mas principalmente de ter sido uma decisão tomada por falta de escolhas. Bodie, um dos personagens que acompanhamos desde a 1ª temporada, conversa com o detetive McNulty e se abre quando diz que está nas esquinas desde os treze anos de idade. Acompanhar a trajetória de Bodie, já depois dos 20 anos, é um sinal do que acontecerá com a maioria das crianças que acompanhamos nessa temporada aos 13 ou 15 anos. The Wire conecta tão bem isso que deixa o retrato ainda mais real e sombrio do que já é.

Foto: Divulgação/HBO

Quando The Wire chega ao último episódio, a esperança que temos de algum desses meninos se salvarem é quase nula. Apesar de todos se perderem, há um certo tom de esperança na sequência que encerra o capítulo quando Namond enxerga da sua nova moradia uma Baltimore que ele não conhecia, mais verde e sem aqueles destroços que comumente vemos como cenário.

Eu gostaria muito de tentar não me repetir, mas me sinto obrigado a dizer que esta quarta temporada foi a melhor que assisti de The Wire até o momento. A série cumpre todos os objetivos: nos envolve com a trama, nos leva a torcer pelos personagens, a vibrar com as ações de Omar (mesmo sem nunca demonstrar compaixão por elas) e, acima de tudo, nos provoca com o mesmo sentimento de insatisfação quando pensamos sobre a sociedade que vivemos e a política que temos.

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