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‘The Wire' conquista tudo o que prometia na 1ª temporada

Uma das séries que mais eu me arrependia de não ter assistido nesses anos era The Wire. Não foi por falta de tentativas. Na primeira eu parei no terceiro episódio da 1ª temporada e não consegui continuar. Na segunda eu não consegui passar do primeiro. Pensei comigo nas duas ocasiões: “ainda não estou preparado para assistir The Wire. Vou percorrer um pouco mais pelas séries que tenho mais acesso e voltarei a ela depois”. Eu não imaginei que isso levaria mais de cinco anos para acontecer. Mas é bom que tenha acontecido.

Hoje sinto que estou muito mais preparado para acompanhar The Wire. Não quero dizer com isso que se trata de uma série difícil. Mas se você já largou Mad Men antes de ter dado uma chance e ter valido a pena, ou se a história de Tony Soprano não lhe agradou tanto nos primeiros episódios da 1ª temporada, The Wire vai pelo mesmo caminho. Não agrada de imediato. A trama é densa, avança de maneira devagar e realista que te deixa sem ar em alguns momentos. Parece que cada episódio foi feito para partir o seu coração.

Exibida em 2002 pela HBO, e criada por David Simon (Treme, Show Me a Hero), The Wire não tem um protagonista, isto é, um herói por onde passa todas as situações. Nos primeiros episódios a série é centrada mais no detetive James ‘Jimmy’ McNulty (Dominic West), que começa a encher o saco dos seus superiores para conseguir a aprovação de uma mega operação que tem o interesse de desmantelar o tráfico de drogas da cidade de Baltimore, então comandado por Avon Barksdale (Wood Harris) e sua gangue.

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Foto: Divulgação/HBO

McNulty consegue a sua força-tarefa formada por policiais, detetives, sargentos e tenentes que estavam encostados em algum canto e foram chamados para fazerem parte da operação. Os chefões lá de cima devem ter pensado: “vamos tirar esses encostos daqui e colocarem eles para fazerem alguma coisa, essa operação não vai durar muito e vamos testemunhar de camarote a carreira de cada um deles desmantelar para sempre”.

Mas a partir daí The Wire se transforma em um retrato realístico de toda uma cidade. Como citado anteriormente, a série é ambientada em Baltimore, uma cidade americana historicamente violenta, com problemas sociais e reconhecida pelo alto índice de criminalidade por causa justamente do tráfico de drogas. David Simon nos coloca no meio de uma guerra contra as drogas que, sabemos desde o início, não terá um lado vencedor. Muito pelo contrário: vidas serão despedaçadas, jovens morrerão e ainda vamos ver gente rindo da situação e, quem sabe, lucrando com tudo isso.

Mas The Wire tem as suas virtudes, logicamente. A história começa a ficar mais sensível quando a polícia consegue instalar escutas nos bipes dos chefões do tráficos e passam a entender como o jogo funciona. É um trabalho meticuloso que a série conduz de maneira impecável, considerando todos os fatores possíveis sem nunca transformar o trabalho em algo glorioso como algumas séries policiais tentam sempre fazer. Aliás, é difícil imaginar The Wire dentro do gênero policial.

Foto: Divulgação/HBO
Foto: Divulgação/HBO

A série está mais para um drama porque não esconde as fraquezas dos seus personagens, muito menos as mazelas da cidade. Seja através dos altos e até “luxuosos” prédios do centro de Baltimore, ou as ruas espaçadas e becos escuros que se transformam muitas vezes em pontos de desova de cadáveres, The Wire retrata uma crueldade que assusta – mas que sabemos que é verdadeira. Afinal de contas, vemos todos os dias no noticiário o que acontece em muitas das cidades brasileiras.

No meio dessa crise impossível de controlar, há pessoas que se acham feitas para o tráfico, uns policiais bons que tentam fazer um bom trabalho no meio de tantos outros que não estão nem aí e, por fim, aqueles que são vítimas da barbárie que aprenderam a conviver desde sempre e tendo apenas duas decisões para tomar: ou fogem daquele lugar sem olhar para trás, ou se juntam ao meio e tentam sobreviver da forma que podem.

A crueldade das ruas

Por isso é triste vê um traficante como Avon Barksdale dizendo que está tomando conta da comunidade onde cresceu, organizando partidas de basquete e dando todo um discurso sobre a importância da família. O seu sobrinho D’Ângelo Barksdale, por exemplo, não consegue se reconhecer naquele lugar mas, sem outra escolha a fazer, trabalha para o seu tio ao lidar com os garotos na rua que aprendem desde muito pequenos as leis e as regras das ruas e, assim, são transformados em soldados do tráfico.

A crueldade chega a níveis de extrema violência quando dois grupos rivais decidem disputar o mesmo espaço. É o que acontece quando Omar (Michael Kenneth Williams) começa a roubar drogas do grupo de Barksdale dando início a um revanchismo que se transforma em cada um revidando de um lado para demonstrar quem tem mais força e mais poder. Omar é um personagem tão tridimensional quanto todos os outros que a série mostra na 1ª temporada, porque suas ações são sempre imprevisíveis. O fato dele ser independente e não estar aparentemente ligado a ninguém, contribui ainda mais para a sua tridimensionalidade.

Foto: Divulgação/HBO
Foto: Divulgação/HBO

Nesse fogo cruzado a violência atinge a todos, mesmo aqueles que acham que estão sentados confortavelmente vendo o circo pegar fogo. A sequência que encerra o episódio 10, e uma das mais bonitas filmada nesta primeira temporada de The Wire, mostra um policial que estava à paisana investigando o dinheiro e a operação do tráfico de drogas que é baleado e fica em estado crítico. Rapidamente, a ação dos criminosos desencadeia uma resposta da polícia que quer colocar “as drogas em cima da mesa” e mostrar à sociedade que o trabalho está sendo feito. Apenas mais uma decisão política do que necessariamente uma preocupação com os cidadãos.

Consistência até o fim

Tantos personagens, tantas tramas, tantos fatos e tantos pontos de vista… Era de se imaginar que em algum momento The Wire perderia o foco ou não conseguiria desenvolver bem uma trama aqui e outra ali. Bom, nada disso acontece. A primeira temporada é consistente do início ao fim. David Simon não tem pressa de resolver o que vai plantando em cada episódio e toma o tempo necessário não só para aprofundar na vida e no cotidiano dos seus personagens, mas principalmente na construção de uma trama que não perde o seu impacto.

Nada que é mostrado está ali para fazer figuração ou é pouco importante. Tudo importa, desde a reconstrução da cena de um crime até policiais se revezando no alto de um prédio para acompanhar a movimentação nos telefones públicos que foram grampeados. Na guerra contra as drogas existe muito mais do que apenas falar sobre uma determinada operação policial para desmantelar o tráfico. E The Wire entende a importância de mostrar a corrupção (“siga sempre o dinheiro”, não é o que dizem?) e a burocracia de um sistema judiciário que facilita a vida dos criminosos.

Foto: Divulgação/HBO
Foto: Divulgação/HBO

McNulty e sua equipe precisam usar de muita criatividade a todo momento para estarem à frente de Avon Barksdale e do seu braço direito Russell ‘Stringer’ Bell (Idris Elba). E não há muitas pessoas com quem contar. Também não é do interesse delas que o caso avance e tenha implicações federais porque aí quem perde não são os traficantes, a polícia ou os cidadãos, mas sim os políticos que não querem sair do poder.

E quando vemos um personagem como Bubbles (Andre Royo, em uma atuação espetacular) dando as costas para a câmera e indo comprar mais drogas depois de uma tentativa fracassada de ficar limpo, por exemplo, e que faz qualquer coisa para conseguir o dinheiro para comprar mais no final do dia porque ficar sem usar por qualquer minuto que seja é impensável, The Wire nos relembra da sua realidade corrosiva e crua, que imediatamente dá vontade de chorar.

Assistir The Wire é ter disposição para receber toda a carga de densidade que a série se compromete a entregar. E, acima de tudo, entrega. É por isso que valeu a pena esperar tanto tempo para finalmente assistir a primeira temporada da série. E agora é impossível não continuar assistindo até descobrir o desfecho que David Simon deu para todos esses personagens, mesmo nos dando pistas de que um final feliz é impossível para qualquer um deles.

[Crédito da Imagem: Divulgação/HBO]