Séries

‘The Wire’ entrega seus episódios mais políticos na 3ª temporada

Nunca dá para terminar uma temporada de The Wire e dizer “nossa, essa foi a melhor que eu assisti”. Há sempre a próxima que, sem muitas dúvidas, será superior à assistida anteriormente porque a série continua evoluindo e aperfeiçoando as tramas e os assuntos que aborda. O terceiro ano de The Wire é assim após o interlúdio que foi a segunda temporada, sendo uma espécie de “tapa-buraco” antes de retomar tudo o que tinha sido construído quando a série começou a ser exibida.

Como em qualquer situação, o jogo evolui. É isso que vemos quando o tráfico de drogas é mais uma vez colocado em perspectiva. Se na 1ª temporada a polícia se acostumou com as escutas em orelhões nas esquinas próximas aos pontos de tráfico, os grupos de traficantes já não podem ser considerados apenas como “bandos”, mas sim uma máfia bem organizada e que toma precauções às quais a polícia demora para entender e investigar.

A trama da 3ª temporada volta às esquinas de Baltimore, principalmente na região Oeste da cidade que está mergulhada nas drogas e tomadas por pequenos grupos que disputam a ferro e fogo suas esquinas. Com Avon Barksdale preso, novas figuras ganham mais espaço. É o caso de Marlo, por exemplo, um traficante novo não só na região como também na idade. Rapidamente ele conquista boa influência. E quando Avon é solto em condicional, uma nova guerra por território é iniciada.

O que os traficantes não contavam era com a decisão do Major Howard Colvin. Cansado de ser sempre pressionado pelos seus superiores que queriam a qualquer custo diminuir as estatísticas de homicídios e entregar um número aceitável ao prefeito, Major Colvin decide criar zonas livres e estratégicas onde o tráfico de drogas é permitido. Assim, a guerra que antes tomava conta das esquinas e apavorava os cidadãos do bairro acabou se transformando em algo permitido e “legalizado” pela polícia, que fazia vistas grossas ao que estava acontecendo. O resultado diminuiu em 14% a taxa de assassinatos em seu distrito. Uma decisão que poderia ser elogiada, certo? Longe disso.

the-wire_01
Foto: Divulgação/HBO

Negócios é Política

The Wire já era uma série política antes dessa temporada. Mas nunca havia tornado seus episódios tão políticos quanto nesse terceiro ano. E não apenas pela decisão do Major Colvin de legalizar por conta própria as drogas em uma determinada região e movimentar os serviços sociais e outras instituições a sustentá-lo em sua decisão. É preciso lembrar que essa temporada de The Wire foi exibida em 2004, dois anos após a invasão dos Estados Unidos ao Iraque e que naquele ano seria declarada como encerrada pelo presidente George W. Bush, reeleito nas eleições no final daquele ano.

O roteiro faz questão de buscar referências entre a guerra às drogas em Baltimore com o que acontecia no Iraque. Um traficante certa hora diz que “as ruas da Zona Oeste estão piores do que Bagdá”. Em outra sequência, um traficante consegue ser ainda mais incisivo e diz uma das melhores frases dessa temporada: “na guerra é assim, quando você tá dentro, você tá dentro. Se for uma mentira, você luta por essa mentira”. E imediatamente a primeira coisa que se pensa é justamente na guerra do Iraque e as mentiras que foram contadas para justificá-la.

A polícia também é colocado sob a perspectiva do outro lado quando o detetive McNulty assiste o debate entre George W. Bush e John Kerry sobre política externa, ao mesmo tempo em que acompanhamos a obsessão do vereador Thomas Carcetti em conseguir apoio para lançar sua candidatura à prefeito da cidade e as reuniões da COMSTAT (policia de Baltimore) que se transformam em um jogo político de apontar a culpa do outro por estatísticas policiais ruins em seus distritos (em cenas que lembram Tropa de Elite).

A ousada decisão do Major Colvin leva a série também a se arriscar. E The Wire se desafia a isso sempre que uma nova temporada se inicia. A forma como a série nos provoca em observar o que acontece em “Hãmsterdam”, um trocadilho com Amsterdã dado pelos traficantes à área livre de tráfico, nos leva a querer discutir a possibilidade de legalizar as drogas e questionar se essa não seria realmente uma saída para tentar diminuir a criminalidade e deixar a polícia trabalhar em casos que são mais importantes ao contrário de ter um cotidiano de pequenas apreensões de drogas e deter traficantes que horas depois serão soltos.

Entre os quatorze anos de intervalo que essa temporada foi exibida, essa discussão avançou bastante em alguns países. No próprio Estados Unidos há cidades que votaram e aprovaram algumas drogas, principalmente a maconha para uso medicinal e que podem ser vendidas em lojas comuns. Se levarmos em conta o Brasil, essa é uma discussão que não existe. Boa parte dos políticos pensam que é uma questão de segurança pública, mas deve ser pensada na realidade como um problema de saúde pública. E ver The Wire já discutindo esse assunto só comprova o quanto a série esteve à frente do seu tempo.

Aos políticos, e para uma boa parcela da sociedade, a resistência à legalização das drogas se deve também ao fato de que ninguém quer levar “o crédito” por isso. Claro, isso ainda é visto como algo ruim e muita gente vai acabar sendo culpada e julgada no final das contas pelos meios de comunicação e a sociedade, que vão questionar “como vocês deixaram isso acontecer” no final de tudo. Isso não só acontece em The Wire, como toda a estratégia desenvolvida pelo Major Colvin é destituída porque a política e a perpetuação no cargo é mais importante do que ser ousado e fazer algo que preste. Vê-lo desolado olhando para o que sobrou de “Hãmsterdam” é uma das cenas mais comoventes dessa 3ª temporada.

Foto: Divulgação/HBO
Foto: Divulgação/HBO

Trabalho de formiguinha

Mas há algumas outras cenas também comoventes que aparecem mais pela força dos diálogos escritos por David Simon ou pela mise-en-scène do diretor Joe Chappelle, que dirige a maior parte dos episódios dessa temporada. Um policial diz em determinado momento que “a pior função da polícia é fazer com que o trabalho importe”. The Wire mostra isso o tempo inteiro, mesmo nos trabalhos de investigação que aparentemente são burocráticos e demoram para alcançar resultados, mas que no final se mostra importante e pouca gente (ou ninguém) deu a devida atenção ou o crédito merecido.

O próprio detetive McNulty chega ao final dessa temporada e confessa ao seu amigo e também detetive: “Bunk, estou cansado”. E entendemos o quão doloroso foi para ele dizer aquilo. Ele aparenta mesmo estar cansado e acompanhamos sua trajetória. Sabemos o porquê do seu cansaço e o quanto ele ainda precisará percorrer, mesmo cansado.

Mais uma vez de forma eficiente The Wire nos coloca para observar os dois lados da moeda, pois acompanhamos a narrativa através do olhar dos traficantes e também da polícia. Isso sem falar naqueles personagens que são vistos como “outsiders” desses grupos e que seguem seus próprios códigos morais, casos de Omar Little e Brother Monzou (responsáveis por protagonizarem uma das melhores sequências da série no início do episódio 11).

A terceira temporada de The Wire foi a melhor que assisti até o momento. Mas, assim como McNulty, estou cansado. Preciso descansar um pouco dos temas pesados e densos que a série aborda antes de iniciar a maratona da quarta temporada que, muito provavelmente, vai me surpreender tanto quanto me surpreendi com esse terceiro ano. Não canso de aplaudir esta série.

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/HBO]

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *