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‘The Wire’ quase decepciona na última temporada, mas continua sendo uma obra-prima

Finalmente terminei The Wire. Foram cinco temporadas e sessenta episódios de mais de uma hora de duração vistos. Não foi fácil. Precisei de intervalos grandes entre uma temporada e outra por causa da densidade da narrativa da série da HBO criada por David Simon. Foi a estratégia que usei para recuperar o fôlego, desembrulhar o estômago e começar de novo sabendo que os problemas vivenciados pela sociedade seriam mais uma vez colocados à prova. No centro de temas envolvendo Drogas, Docas, Política, Educação e Mídia, assuntos marcantes da primeira à quinta temporada, uma cidade: Baltimore.

A sequência que encerra The Wire é um compilado de cenas cotidianas da população de Baltimore vivendo suas vidas em diferentes regiões da cidade. E o olhar do detetive Jimmy McNulty (Dominic West), encarando o arranha-céus da cidade enquanto passa um filme em sua cabeça, corresponde a uma análise pessoal sobre tudo que ele viveu em Baltimore até finalmente dizer “vamos voltar pra casa”. Sim, porque não importam as desilusões experimentadas em meio às pressões exigidas pelo próprio trabalho (que o levaram a cometer atos inescrupulosos), aquela cidade será para sempre a sua casa – e a de tantos outros cidadãos comuns que aparecem nessas imagens.

Porém, é bom que se diga: The Wire finaliza a quinta temporada deixando um gosto agridoce em quem passou quatro temporadas admirando tudo o que a série fez. Não é um fiasco. Mas chega a ser decepcionante considerando tudo que The Wire exibiu. A quinta temporada se esforça o tempo inteiro em lutar contra os próprios limites e afunilamentos que os roteiristas foram criando. Em um certo ponto, aquele cuidado que The Wire tanto preservava antes em construir delicadamente cada arco narrativo é pouco a pouco deixado de lado uma vez que a narrativa precisa avançar – mesmo que não concordamos para onde está indo.

Foto: Divulgação/HBO

Se tem uma coisa que The Wire ensinou entre uma temporada e outra é que não importa o tom desesperançoso sobre a falência de todo um sistema, que deveria servir como alicerce para os moradores da cidade, há sempre uma forma de continuar vivendo e passando por cima desses obstáculos. É exatamente o que ocorre mais uma vez até o final da quinta e última temporada. A série demora para encontrar o seu caminho quando decide investigar a cobertura da mídia, mais precisamente do The Baltimore Sun, sobre aquilo que acontece na cidade. Um caso envolvendo um suposto serial killer que mata moradores de rua acaba devolvendo recursos financeiros à polícia de Baltimore, escassos desde que o prefeito-eleito Thomas Carcetti (Aidan Gillen) resolveu disponibilizar mais verbas para consertar o falido sistema educacional (mostrado na temporada anterior).

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Acompanhamos de perto, com vergonha, as mentiras que vão sendo contadas tanto pela polícia (que está forjando um caso para receber recursos para prender Marlo e sua turma) e a cobertura do repórter Scott Templeton (Tom McCarthy, diretor de Spotlight), que costumeiramente inventa histórias, falas de entrevistados e destila ao longo de dez episódios tudo de antiético que existe na profissão de jornalista. E o mesmo vale para McNulty, cansado das derrotas como detetive, o vemos completamente diferente das temporadas anteriores, voltando a se entregar ao álcool e forjando um serial killer para liberar verba e dar continuidade à investigação dos homicídios na Vacant Houses e à operação agora chefiada por Marlo Stanfield.

Também há bom jornalismo sendo feito

Apesar das críticas de The Wire à imprensa, que recebe conforto e afago pois a série entende o momento de cortes e a crise nos jornais impressos perdendo espaço para a TV e a Internet, há uma boa cobertura jornalística sendo feita apesar de todas as mentiras contadas. E não existiria melhor história do que a de Reginald ‘Bubbles’ (Andre Royo) para ser contada, quando um repórter do The Baltimore Sun passa uma semana acompanhando sua rotina e escreve o perfil de alguém que saiu do buraco das drogas e conseguiu sobreviver. Isso é trabalho de repórter sério. Na realidade, é para isso que estudantes entram nas faculdades de Comunicação: contar uma boa e verdadeira história.

Os diretores responsáveis pela quinta temporada filmam a redação do jornal usando travellings (inspirados pela direção de Alan J. Pakula em Todos Os Homens do Presidente) que conseguem enquadrar a movimentação frenética de todo o espaço de trabalho – e vale ressaltar o bom trabalho de design de produção nesse aspecto, já que as mesas de todos os repórteres vivem amontoadas de papel e blocos de anotações espalhados que, sendo jornalista, consigo olhar e saber que dá perfeitamente para se concentrar e escrever (algo impensável para quem olha de fora e conhece pouco sobre a profissão).

Foto: Divulgação/HBO

Fico ao lado da série quando claramente critica-se a obsessão de jornalistas (e do jornal) por um prêmio Pulitzer. Irônico notar a série debatendo esse assunto porque justamente há algumas semanas ouvi um podcast do Brainstorm 9 que também analisa como os publicitários pensam em trabalhos específicos para serem reconhecidos com um Cannes. Se vemos um jogo político sendo feito às claras em gabinetes da prefeitura e da governadoria, nas redações o clima não é diferente.

Nada é perfeito

Mas se tem uma coisa nessa história toda que eu não esperava que acontecesse era me decepcionar com a série. Apesar de alguns episódios (“Late Editions” é um exemplo) que realmente lembravam os grandes momentos da quarta temporada (eleita por mim como a melhor, aqui e agora), a quinta temporada de The Wire é onde a série mais patina (e por pouco não cai).

A começar pela morte de Omar, tão fora de propósito que o personagem “merecia” a vingança que tanto o moveu em seus momentos finais. É culpa da própria série nos fazer torcer pelo personagem vivido tão delicadamente por Michael K. Williams. E quando ele é abatido em um supermercado local de Baltimore, nos perguntamos: “então é isso”? Outra questão que deixa a desejar é quanto aos arcos dos garotos Michael e Duquan. O primeiro parece, ao final, assumir a posição de Omar e fica evidente que The Wire está tentando forçar a barra. Enquanto que Duquan, se entregar às drogas e viver nas ruas, não parece ser uma decisão que condiz com a inteligência e perspicácia que o garoto demonstrava ter na temporada anterior.

Foto: Divulgação/HBO

Melhor rir do que chorar

The Wire não é uma série otimista e o final não poderia ser diferente. Tudo que foi tentado fazer para prender os traficantes foi em vão. E não tinha mesmo como dar certo: com a polícia ainda mau preparada e a administração pública se preocupando primeiro consigo mesma e na troca de favores para os políticos que estão no poder continuarem lá, não é surpreendente ver que as coisas que tanto vimos a polícia enfrentando continuem lá. Afinal, não são problemas que foram resolvidos por ninguém. É um soco no estômago em apontar o dedo para os verdadeiros culpados e dizer: “olha aí o que vocês estão fazendo”.

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Porém, como chegamos ao final mais nos importando com os personagens do que com uma realidade impossível de se transformar sozinha, é bom ver que os policiais que acompanhamos terminam o dia brindando à irmandade que construíram no serviço policial. É tudo o que resta a eles e é o que existe de mais sagrado. Momentaneamente The Wire conseguiu substituir o tom melancólico que sempre marcou os finais de temporada da série, e toda a narrativa, por um breve suspiro de prazer e alegria. A realidade continua lá fora. E se analisarmos hoje, está ainda pior.

Assista o trailer:

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/HBO]

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