Se tem uma coisa que The Wire sabe fazer bem é não tornar a série contada sob o ponto de vista de um único personagem. Mesmo na primeira temporada (leia aqui), quando aparentemente The Wire seguiria o detetive Jimmy McNulty em sua investigação para desmantelar um complexo esquema de tráfico de drogas, a série tratou de expandir a trama ao nos colocar no meio de tantos personagens que às vezes é até difícil conseguir gravar o nome de todos.

Quando na segunda temporada o escritor David Simon ambienta a sua série nas docas de Baltimore meses após a prisão do traficante Barksdale e sua trupe ao final da 1ª temporada, o choque não é tão grande. Mas aí The Wire vai ainda mais longe ao nos colocar no centro de famílias e bairros constituídos por brancos, nos obrigando a ver um outro lado da cidade de Baltimore que ainda não havíamos conhecido. E vou contar uma coisa: cada episódio é um verdadeiro soco no estômago

[SPOILERS A PARTIR DAQUI]


Como cada temporada leva um codinome (a primeira, “drogas; a segunda, “docas”; a terceira, “política”; a quarta, “escolas”; e a quinta, “imprensa”), o segundo ano já começa com o corpo de uma mulher que é encontrado por McNulty, agora trabalhando na patrulha do Porto após ser destituído da Delegacia de Homícidios, boiando na baía de Baltimore. Sem qualquer identidade da moça, aquele corpo logo estaria ligado a outras treze mulheres mortas asfixiadas dentro de um contêiner nas docas de Baltimore. Mulheres que eram tratadas como mercadorias por um homem conhecido apenas como ’O Grego’, responsável também pelo abastecimento de uma nova droga na cidade e outros negócios obscuros.

Enquanto Avon Barksdale tenta manter seus negócios intactos mesmo estando preso (confiando tudo ao seu braço direito Stringer Bell), The Wire agora é sobre a classe operária que trabalha nas docas – cujo personagem de destaque é um polonês que imigrou para os Estados Unidos. Frank Sobotka vive para o seu sindicato e sabe tudo o que acontece nas docas. Além disso, mantém uma rusga com outro polonês residente de Baltimore, o major Stan Valchek, que contrariado por uma ação tomada por Sobotka, forma um Destacamento para investigar os podres do seu rival e levá-lo à Justiça. E essa “pequena” investigação levará à falência de Frank, algo que relato melhor mais adiante.

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Crédito da Imagem: Divulgação/HBO

À medida que a temporada avança, as tramas se desenrolam e vão se tornando cada vez mais complexas (principalmente pelo número excessivo de personagens envolvidos). Entretanto, The Wire não deixa de usar o que acontece nas docas como crítica social para mostrar a corrupção e a falência de um sistema, o qual acarreta na morte de pessoas inocentes e contribui para a miséria daqueles que vivem à margem e sem qualquer esperança. É o que acontece quando uma garota é morta vítima de bala perdida em uma disputa entre dois grupos rivais que entram em confronto por um ponto de tráfico, lembrando muito o que acontece nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, e também em outras metrópoles brasileiras.

Isso faz parte de uma longa subtrama que The Wire desenvolve com o intuito de retomá-la mais à frente, já que o foco principal mesmo está na resolução dos treze homicídios e na identidade do homem conhecido como ‘O Grego’. Sua composição fria e calma lembra Anton Chigurh (Javier Bardem) no filme Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), dirigido e roteirizado pelos irmãos Coen. Tanto em The Wire quanto no longa, ‘O Grego’ e Anton Chigurh funcionam como uma metáfora da personificação da violência porque ambos tomam decisões que acarretam em ações que se desenrolam em mortes, tristezas e famílias sendo quebradas. Em um momento ‘O Grego’ chega a dizer para o seu comparsa que eles agora precisam “fechar tudo” e ir para outro lugar. E nessa fuga o motivo principal é “sempre negócios”.

Claro, eles não estão preocupados com o terror que deixaram pelo caminho que passam, preocupando-se apenas em achar um novo lugar onde sua organização criminal possa novamente acampar e continuar crescendo sua rede de negócios, usando o desespero de alguns para corrompê-los para o lado deles.

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Crédito da Imagem: Divulgação/HBO

Personagens trágicos

Por causa dessa relação, a segunda temporada de The Wire é recheada de personagens trágicos. Frank Sobotka é um deles, mas a sua tragicidade está diretamente ligada ao seu filho Ziggy (sempre instável), e o seu sobrinho, Nicky Sobotka (que tenta ser um protetor de Ziggy, mas sem muito trabalho nas docas acaba se envolvendo com a rede do Grego).

Frank nunca se perguntou o que tinha nos contêineres e acreditava que eram coisas menores. Com o fluxo de trabalho pequeno nas docas, ele precisou se aliar a esse grupo para ter dinheiro e poder financiar o seu atuante sindicato. Nicky “ganha” o emprego para ajudar o tio nessa relação, enquanto que o filho entra na jogada pela necessidade de atenção que ele nunca teve. Uma combinação que logicamente dá muito errado. E em certo ponto é até triste ver a família Sobotka se desfazendo pouco a pouco (ainda que seja por culpa inteiramente deles).

A cada episódio vemos Ziggy por exemplo se envolvendo em todo tipo de negócio, seja traficando drogas, roubando carros, arrumando confusão com traficante e tentando ganhar o respeito dos estivadores que trabalham com o seu pai. Chama atenção a distância dos dois, que dificilmente vemos juntos e mesmo no bar frequentado por todos os trabalhadores das docas, estão sempre sentados separados. Ao contrário de Nicky, mais próximo do seu tio e das decisões que ele toma. Quando Frank percebe que seu filho está em apuros já é tarde demais. Um distanciamento e falta de cuidado frutos de um relacionamento entre pai e filho que eles nunca tiveram.

Por outro lado, o destino de Ziggy foi uma escolha particularmente dele. Talvez ao final ele tenha se sentido orgulhoso daquilo que fez justamente por ter tomado uma decisão unicamente sua pela primeira vez na vida. Resignado pela situação sem saída que ele próprio se colocou, Ziggy é aquele personagem errático da série que estava ali sempre para ser salvo até não ter mais ninguém que passasse a mão na sua cabeça ou resolvendo sua situação, o empurrando (sem imaginar) para continuar fazendo besteira logo depois.

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Crédito da Imagem: Divulgação/HBO

Decisões arriscadas

Outro personagem trágico, e fora desse círculo dos Sobotka e do que acontece nas docas, é o traficante D’Angelo Barksdale. Preso na temporada anterior, ele está decidido a deixar o grupo, uma decisão que vinha se solidificando desde a primeira temporada. Em uma passagem no episódio “All Prologue”, um dos melhores juntamente com “Storm Warnings”, D’Angelo discute com outros presos no clube de leitura sobre os temas do livro O Grande Gatsby (1925), de como uma pessoa pode assumir uma nova identidade, mas nunca consegue escapar daquilo que realmente é.

Com a chance perdida de ter se tornado realmente livre de Avon Barksdale quando ainda não havia sido preso, fui pego de surpresa com a decisão tomada por Stringer Bell de matá-lo fazendo com que o assassinato fosse visto como suicídio. A chegada do temido Brother Mouzone, irmão de Avon Barksdale, à Baltimore para colocar os negócios em ordem passa por essa decisão de Stringer, que está fazendo alianças com Prop Joe (um traficante rival, mas vendendo um produto de qualidade nas ruas) sem o conhecimento do chefe.

Por isso que a chegada de Brother Mouzone causa calafrios em muita gente. Vestido com um terno e gravata borboleta, ele é completamente diferente daqueles que estamos acostumados a ver. Em uma passagem, Mouzone diz que “a coisa mais perigosa na América é um negro com um cartão da biblioteca”. Apesar de causar bom impacto à narrativa, David Simon comete um erro de não tornar Mouzone um personagem humano com todos os outros, servindo depois para esquentar a briga entre ele e Omar, este sim muito mais honesto e complexo, tornando-se fascinante a cada capítulo.

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Crédito da Imagem: Divulgação/HBO

Sempre em frente

Tanto no final da primeira quanto da segunda temporadas, vemos os personagens principais de The Wire continuando a vida mesmo com tanta coisa trágica e confusa acontecendo. E David Simon acerta ao não traduzir isso como uma habilidade positiva, mas sim como um retrato muito forte do quanto eles são sufocados pelo meio que vivem. Por isso eles são forçados a seguirem em frente sem olharem para trás. E o futuro é completamente desconhecido, sem nada que possa lhes indicar que eles estão no caminho certo.

Apesar de Simon ter perdido tempo no início da segunda temporada tendo que juntar a equipe de investigação do primeiro ano, já que ao final ele os separa completamente para logo ter o trabalho de juntá-los novamente (e isso criou algumas situações forçadas que não condizem com a força da narrativa da série), The Wire mais uma vez concentrou a força da sua narrativa em seus personagens. A esse ponto já nos preocupamos o suficiente com eles para nos importarmos com o que irá acontecer.

Em The Wire é difícil fazer previsões porque cada temporada é diferente e a série não é dessas de entregar respostas fáceis. O maior êxito de The Wire até aqui é saber contar a história cujo impacto está diretamente ligado aos problemas sociais da cidade de Baltimore, mas principalmente em saber como humanizar os personagens que estão inseridos nessas tramas sem nunca oferecer um destino fácil para suas vidas conforme o meio instável e violento que vivem.

[Crédito da Imagem: Divulgação/HBO]

1 thought on “'The Wire' tem 2ª temporada marcada por personagens trágicos

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