Cinema

‘Trama Fantasma’ tem história imprevisível e cheia de estilo

O mesmo mistério que permeou o lançamento de Trama Fantasma até praticamente a sua estreia também é o que norteia a narrativa do novo filme de Paul Thomas Anderson, o oitavo da sua carreira e o primeiro ambientado inteiramente na Inglaterra. Escrito pelo próprio diretor, o filme é imprevisível ao construir com esmero afinco as personalidades dos seus personagens. Trama Fantasma acompanha Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis, em provável última atuação) e sua obsessão e genialidade em desenhar vestidos que são usados pela alta classe britânica e a realeza europeia.

Mas logo nos primeiros quadros de Trama Fantasma, Paul Thomas Anderson faz questão de mostrar que o ambiente onde a narrativa se desenvolve, a Casa de Woodcock, é rodeado por estranhezas e manias que têm um único objetivo: respeitar o processo criativo de Reynolds. Quando ele é confrontado logo no café da manhã por uma de suas modelos, fica nítido o quanto Reynolds é um homem de difícil convivência, capaz de ser entendido (ou compreendido) apenas por sua irmã, Cyril (Lesley Manville). Ao tirar o final de semana de folga e partir para o campo, ele conhece a misteriosa Alma (Vicky Krieps), uma simples garçonete e por quem Reynolds imediatamente se interessa.

Não demora muito para Alma se tornar a sua musa. A sequência em que ele tira suas medidas para ela provar um de seus vestidos evidencia o seu entuasiasmo, enquanto que a passagem quando Reynolds diz “eu estava te procurando há muito tempo” ajuda a iluminar que para Reynolds a paixão tinha que estar perfeitamente alinhada ao seu ofício. Enquanto Cyril acredita que Alma se transformará em apenas mais uma que passará pela Casa Woodcock, a tensão se estabelece entre os dois à medida que os modos e a personalidade de Alma confrontam e incomodam Reynolds, o retirando de uma posição confortável.

A claustrofobia evocada pela narrativa, que se passa inteiramente dentro de uma casa e a qual mesmo sendo enorme, parece ser apertada demais e oferece pouco espaço para o ego, a desconfiança e o medo dos seus personagens, Trama Fantasma vira um jogo de poder onde a elegância e a beleza dos figurinos assinados por Mark Bridges dão alguma leveza à narrativa e transitando entre o cinismo e o humor cômico de maneira tão sutil que só deixam Trama Fantasma ainda mais exuberante. Porque a trama se encarrega de mudar conforme o relacionamento de fascínio entre Alma e Reynolds passa do estágio de paixão para uma relação doentia em que ambos estão plenamente de acordo em ter.

Se o figurino assinado por Bridges torna-se um elemento óbvio para ser aplaudido, também chama atenção a maneira como Mark Tillsdale apresenta o design de produção do filme; hora emula as características de um ateliê (quando Reynolds vai para a sua casa de campo) e onde podemos ver alguma verdade da sua vida e da sua intimidade com fotografias da sua mãe, vestidos embalados em caixas e tecidos que ajudam a compor o cenário; em outro momento, quando a narrativa volta à capital para a Casa de Woodcock, a ideia se opõe e passa a reverenciar o luxo e o estilo de um lugar que precisa fazer com que seus clientes e modelos sintam-se prestigiadas de estarem ali.

Como se não bastasse, um outro ponto forte de Trama Fantasma é a trilha sonora composta por Jonny Greenwood, em sua quarta colaboração com Paul Thomas Anderson. O uso de cordas dá uma sensação de peso à narrativa, como se a trama estivesse em constante suspense. Enquanto que o uso do piano na maior parte das composições caracteriza o tom melancólico que a narrativa passa a ter na plenitude da sua forma, sendo importante inclusive para a montagem de Dylan Tichenor, que cria em Trama Fantasma transições de imagens sobrepostas que lembram os filmes do cineasta italiano Federico Fellini. Alinhado a esses elementos está o design de som, preciso nos detalhes de efeitos sonoros que vão desde a abotoadura de um vestido até os barulhos que irritam Reynolds no café da manhã – e que, por conseguinte, também acaba nos incomodando.

Paul Thomas Anderson entrega mais uma vez um bom papel para Daniel Day-Lewis poder usar a sua imaginação e criatividade em seu método de atuar. Não há como deixar de recordar também que, mesmo que isso não tenha passado pela cabeça do ator, Trama Fantasma marca uma certa redenção para Daniel Day-Lewis – principalmente depois do seu anúncio de aposentadoria. Sem atuar na Inglaterra desde a década de 80, quando abandonou uma montagem de Hamlet na qual atuava após a sensação de ter visto a imagem do seu pai, Cecil Day-Lewis, no palco, Trama Fantasma é o filme no qual esse medo talvez tenha sido deixado para trás.

E no final, tudo o que nos cabe é admirar o filme. Mas mais ainda o poder de Paul Thomas Anderson em contar uma boa história e, claro, de termos essa sorte de assistir o maior ator do nosso tempo em sua última performance.

Assista o trailer:

Trama Fantasma (Phantom Thread, 2018)
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Lesley Manville e Vicky Krieps.
Duração: 130 minutos

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