Desde que o retorno de Twin Peaks foi garantido pelo Showtime, reunindo não só todo o elenco mas também a mente criativa dos criadores Mark Frost e David Lynch, foi chegado o momento de finalmente (quem sabe?) entendermos as pontas soltas deixadas pela série mesmo tendo resolvido (em parte) o assassinato de Laura Palmer. Certamente Twin Peaks sempre foi muito mais do que apenas responder “Quem Matou Laura Palmer”, tanto que a série não respondeu essa pergunta ao final da 1ª temporada e só chegou a revelar o mistério por conta mesmo da pressão do canal ABC na época, desesperada assistindo a série perder audiência semana após semana e contrariando o próprio David Lynch que não queria entregar o mistério.

Contudo, se hoje comentamos sobre a Era de Ouro da TV a partir de séries como Família Soprano, The Wire, Lost, Breaking Bad e Mad Men, temos que agradecer e aplaudir Twin Peaks por abrir caminho para as séries televisivas se arriscarem em desenvolver uma linguagem própria, arriscarem trazer mais camadas e efeitos à trama. Twin Peaks não é uma série que se encaixa em nenhum padrão, não se comparando em nenhuma série que escolhe um método mais tradicional de contar a história de um assassinato e suas consequências. Foi pela ousadia e visão de David Lynch e Mark Frost que Twin Peaks mudou a TV para sempre.

A sequência que abre Twin Peaks se tornou um clássico da TV quando o corpo de Laura Palmer é encontrado em um saco plástico. A narrativa daquele episódio dirigido por David Lynch até hoje precisa ser tratada como exemplo, uma referência para qualquer capítulo “Piloto” que queiram fazer. Durante uma hora e meia, conhecemos um pouco da pequena cidade de Twin Peaks e que, dado pelo número pequeno de habitantes (pouco mais de 51 mil), a cidade guarda mais mistérios do que aparenta. É nesse ambiente familiar e simples que o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) chega com o intuito de desvendar o crime, usando métodos ainda menos tradicionais que chamam a atenção do departamento policial da cidade – formado por pessoas tão incomuns quanto o próprio Cooper.

Twin Peaks se estabeleceu como um clássico logo nas primeiras sequências. | Foto: Reprodução

A primeira temporada

Em seu ano de estreia, Twin Peaks não demonstra nenhuma pressa para responder o que todos estão se perguntando. Pelo contrário: a série se concentra primeira e unicamente nos habitantes dessa estranha cidade. Os primeiros suspeitos começam a surgir a partir das investigações de Cooper e do Xerife Harry S. Truman (Michael Ontkean). O namorado Bobby, queridinho da escola e que esconde sua identidade como traficante? O secreto outro namorado, James, o bad boy de Twin Peaks? Ben Horne, parceiro de negócios do seu pai Leland, com planos de cortá-lo do futuro de compra que o negócio está passando? Cooper toma várias xícaras de café enquanto desconfia das motivações de cada uma dessas pessoas.

Mas o que mais chama atenção de imediato na primeira temporada são os sonhos de Dale Cooper, sempre carregados de significados e pistas que ele acredita e segue sem questionar. Mesmo baseando sua investigação nesses sonhos, compartilhados com a equipe do Xerife, é interessante como ninguém questiona a investigação. Isso só mostra o quanto aquelas pessoas estão acostumadas com o anormal, sendo o assassinato de Laura Palmer um choque porque a garota era vista como certinha e a mais linda da cidade. Mas vai ficando claro que ela não era tão “certa” assim, se envolvendo em negócios que envolviam pessoas perigosas que controlavam uma certa fatia da cidade.

E ao contrário do esperado, Lynch e Frost não respondem a questão da identidade do assassino de Laura Palmer ao final da 1ª temporada, mantendo o mistério para o segundo ano (uma inspiração que The Killing também teve há alguns anos quando estava no ar). Entre o final do primeiro ano e o início da temporada seguinte, claro mesmo para Frost e Lynch é a intenção que eles tinham de expandir a mitologia da série, envolver outros personagens que ainda não tinham sido envolvidos e manter a narrativa misteriosa porque o choque quando eles finalmente respondem a questão é enorme.

A Segunda Temporada

O ano seguinte de Twin Peaks é cheio de altos e baixos. Apesar do formato de vinte e dois episódios durar até hoje, mesmo nesse início já dava sinais de cansaço com muitos capítulos funcionando apenas como complementos que nada de relevante ou substantivo criavam. Quando descobrimos quem de fato matou Laura Palmer, lá pelo sétimo episódio da 2ª temporada, a série de David Lynch e Mark Frost entra em um derradeiro criativo que coincide com o distanciamento dos seus dois criadores. Apesar de Harley Peyton e Robert Engels, produtores-executivos de Twin Peaks, terem escrito bons episódios na 1ª temporada, claramente eles não sabiam para qual caminho levar a série após aparentemente solucionar o crime.

São mais de sete episódios que Twin Peaks testa pela primeira vez a paciência de quem assiste. Até que finalmente Lynch e Frost retornam para o 17º episódio, estabelecendo novamente o mesmo clima de mistério e anormalidades que permearam toda a série. Ainda hoje, quando revi o final da série há alguns dias, é um golpe de mestre da dupla Lynch/Frost porque eles provocam no espectador uma dúvida que dá mesmo um gosto de que poderíamos assistir mais, a série merecia mais episódios. A ABC, no entanto, cancelou Twin Peaks e aquele fim amedrontador permaneceu por muito tempo na cabeça de muito fã, incluindo eu, até que agora a terceira temporada promete resolver algumas daquelas questões (ou apenas trazer mais questionamentos, tudo é possível).

Pra começar: será que Twin Peaks mostrará Denise pela primeira vez, a secretária para quem Cooper grava seus relatórios? Lynch e Frost contarão mais detalhes sobre o significado do White Lodge e Black Lodge, o que esses lugares escondem? E o demônio Bob, de que maneira esse ser foi criado e qual a relação com a floresta de Twin Peaks? Isso sem falar na própria vida de Dale Cooper: o que aconteceu com ele durante esses 25 anos após aquele final da série? Veja o trailer:

Os Últimos Dias de Laura Palmer

Em uma recente entrevista David Lynch disse que o filme Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (1992), lançado pouco tempo após o final da segunda temporada, vai ser importante para entender a mitologia da 3ª temporada. Irônico ler Lynch falando sobre esse filme porque durante todos esses anos ele era pouco mencionado, talvez pela recepção ruim quando foi exibido no Festival de Cannes em maio de 1994, ou por não oferecer nada de relevante que explicasse (ou justificasse) o final da 2ª temporada.

Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer acompanha os sete últimos dias vividos por Laura Palmer antes de ser morta e mostra também os detetives que ainda não tínhamos visto na série, Chester Desmond (Chris Isaak) e Sam Stanley (Kiefer Sutherland), investigando o assassinato de uma outra garota, Teresa Banks, na região de Deer Meadow, uma cidade com as mesmas características de Twin Peaks: pequena, tomada por segredos incomuns e igualmente  cheia de pessoas suspeitas que fingem estarem levando a vida perfeita.

O filme oferece algumas respostas como, por exemplo a de que desde adolescente Laura Palmer é perturbada e violentada pelo demônio Bob, que se apossou do corpo do seu pai Leland o fazendo assassinar a própria filha, suas confusões no colégio e assistimos sua personalidade sendo criada para se transformar, como bem colocado por uma análise do jornal Telegraph, em uma “clássica mulher Lynchiana com problemas como foram a Rita de Cidade dos Sonhos e a Nikki de Império dos Sonhos”.

Esse método Lynchiano que vemos em Twin Peaks, e assistimos amadurecer no provocador e genial Cidade dos Sonhos (2001) e no irregular Império dos Sonhos (2006), levou o próprio diretor a dizer que possivelmente não fará mais cinema porque, em outras palavras, não existe mercado para os seus filmes. Sobre isso David Lynch pode se considerar um artista (talvez) realizado porque hoje a televisão tem um vasto espaço para suas ideias, comprovando que sua ousadia de usar a TV como um espaço capaz de abraçar os riscos mencionados no início desse artigo deu resultado e hoje é visto com naturalidade – e até obrigatório, caso a série queira mesmo conquistar um público fiel e a crítica.

Um guia para Twin Peaks

A esse ponto já ficou claro que Twin Peaks tem uma mitologia própria e vasta. Não bastam apenas os vinte e oito episódios que formam as duas temporadas; há o filme, já citado aqui, e também o recente livro The Secret History of Twin Peaks (veja aqui), lançado em 2016 e ainda inédito no Brasil, escrito pelo co-criador de Twin Peaks, Mark Frost.

Esse material é importante, segundo Frost, para compreender de antemão a que pé anda a investigação nesse intervalo de 25 anos e o conteúdo de todos os documentos recebidos pelo agente Dale Cooper mesmo após o caso ter sido dado como encerrado – incluindo uma fita com todas as gravações feitas por Cooper para Denise.

Mas para voltar a acompanhar a série sem se preocupar com essas pistas escondidas por Lynch e Frost, listamos os episódios essenciais para voltar a se conectar com esse universo de Twin Peaks. Assista o vídeo que produzimos abaixo:

A terceira temporada de Twin Peaks estreia no próximo dia 22 de maio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *