Cinema

Um Homem Entre Gigantes expõe estudo que mudou a NFL para sempre

Um Homem Entre Gigantes (de onde é que eles tiraram esse título?) é um filme que se difere e muito da maioria das produções (como o último A Grande Escolha) cujo principal foco é o futebol americano. Ao contrário de mostrar o fascínio do jogo (que aqui é usado apenas para expôr não a beleza do esporte, mas os perigos causados por ele), Um Homem Entre Gigantes mostra jogadores da liga que desenvolveram lesões importantes no cérebro após se aposentarem, levando muitos a ouvirem vozes, sofreram de distúrbios e ansiedade e, como consequência, ocasionando o suicídio de muitos deles.

Não é um passado tão distante. Se passando no início dos anos 2000, na cidade de Pittsburgh, conhecemos o Dr. Bennet Omalu (Will Smith), médico nigeriano que se mudou para os Estados Unidos cedo e com a esperança de construir uma carreira. Dono de um currículo invejável (ele tem ao menos seis diplomas), Dr. Omalu é virtuoso e apaixonado por seu trabalho, levando muito a sério o que faz como médico legista. Mas a sua especialidade é o cérebro humano. Quando o jogador de futebol americano Mike Webster (David Morse), center do time do Pittsburgh Steelers, comete suicídio e causa grande comoção na cidade, Dr. Omalu descobre múltiplas lesões em seu cérebro, possivelmente causadas enquanto ele jogava futebol.

E quando outros jogadores começam a morrer, Dr. Omalu percebe que há sim um padrão para o que está acontecendo e que a Liga de Futebol Americano (NFL, na sigla em inglês) tenta acobertar como pode. O diretor Peter Landesman, também responsável pelo roteiro a partir do artigo “Game Brain” escrito por Jeanne Marie Laskas para a revista GQ, faz questão de nos lembrar o tempo inteiro o quão poderosa é a liga, ao mostrar em muitas passagens entre uma cena e outra o imponente estádio dos Steelers. Em um determinado diálogo, um médico até chega a dizer que o governo gastou mais de US$ 200 milhões construindo uma nova “casa” para o time, enquanto o estado enfrenta dificuldades orçamentárias e falta de empregos.

Logo nas primeiras cenas, Um Homem Entre Gigantes é eficaz ao estabelecer as credenciais de Dr. Omalu, o que faz com que mesmo conhecendo a história e sabendo que é verdade, não demoramos muito para acreditar em sua pesquisa. Ao contrário do que a Liga de Futebol Americano (NFL) tenta fazer, ao descreditar o seu trabalho, Dr. Omalu mostra integridade e confiança nas descobertas. Amparado também pela ajuda do Dr. Cyrill Wecht (Albert Brooks) e Dr. Julian Bailes (Alec Baldwin), este último um ex-médico do time principal dos Steelers e que nos oferece, ainda que rasteira, uma visão de dentro da NFL, pois o tempo inteiro ele mesmo questiona Dr. Omalu sobre os impactos que os seus descobrimentos terão no jogo e sem se importar que o mais importante não é exatamente o que está em jogo, mas sim a integridade que esse esporte precisa representar por ser o mais popular nos Estados Unidos.

Um Homem Entre Gigantes peca apenas quando tenta equilibrar a narrativa da história principal com a própria trajetória de Dr. Bennet Omalu. Desde o primeiro momento que ele conhece a enfermeira Prema Mutiso (Gugu Mbatha Raw) que, assim como ele, imigrou de um país africano para os Estados Unidos, a história teria boas chances de ser bem contada se o roteiro de Landesman conseguisse estabelecer uma relação entre eles. Mas não é o que acontece. E em nenhum momento o romance entre os dois torna-se importante, sendo apenas uma trama que preenche algumas lacunas enquanto a história que importa avança. O que é uma pena. Porque claramente a relação entre os dois poderia justificar melhor o porquê de, mesmo após tanto descrédito até a Liga finalmente aceitar os seus estudos, ele tenha resolvido continuar morando em uma pequena cidade da Califórnia ao invés de aceitar um importante trabalho na capital do país.

Alternando bons momentos dramáticos e outros que mostram a sua competência como ator (repare como Will Smith se esforça para falar com dificuldade e com sotaque, demonstrando que o inglês não é a sua língua e que ele não se sente totalmente confortável), é preciso questionar o porquê de Smith não ter sido lembrado na última temporada de premiações. E se Albert Brooks e Alec Baldwin apenas fazem mais do mesmo, é ele quem segura o filme e a integridade do seu personagem – o que ajuda a dá respaldo nas descobertas que conseguiu. Por causa de seus estudos, a liga hoje leva o assunto muito a sério e possui cronogramas e exames específicos que os jogadores precisam submeter-se quando sofrem algum tipo de concussão, seja dentro da partida ou no treinamento.

Sim, é um jogo fascinante. Mas também perigoso e responsável por abreviar a carreira de muitos jogadores. E precisou alguém de fora, que não fosse americano, para olhar para esse problema de perto e ter a coragem de apontar o que estava errado.

Assista o trailer:

Crédito da Imagem: Divulgação

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