Cinema

‘Um Limite Entre Nós’ é um duelo de titãs entre Viola Davis e Denzel Washington

A primeira meia-hora de Um Limite Entre Nós é definitiva para estabelecer o tom que permeia toda a narrativa do filme, baseada na peça teatral escrita por August Wilson: diálogos exaustivos de personagens comuns, que levam uma vida comum e que enfrentam conflitos e situações familiares complexas. A primeira sequência é um longo diálogo entre Troy (Denzel Washington) e Bono (Stephen Henderson), amigos de longa data e que trabalham juntos coletando o lixo em Pittsburgh. À medida que a conversa avança vamos tomando conhecimento do rancor e angústia carregados por Troy e que estão no centro das discussões familiares.

Frustrado por não ter se tornado um jogador de beisebol porque era negro e lutando com o seu chefe no trabalho para deixar de ser o coletor do lixo e se tornar motorista, Troy é um personagem difícil o qual não sentimos vontade de torcer apesar de compreendermos o porquê dele ser ao mesmo tempo tão rancoroso, como no trato com os dois filhos, Cory (Jovan Adepo) e Lyons (Russell Hornsby), ou compreensível como na relação com o seu irmão doente Gabriel (Myskelti Williamson) e sua esposa Rose (Viola Davis). Mas todo o discurso de Troy, no entanto, que lhe dava respeito e credibilidade vai perdendo espaço e mostrando quem de fato ele é.

Dirigido por Denzel Washington, que encenou a peça na Broadway também ao lado de Viola Davis, Um Limite Entre Nós é um filme de embates: de um lado, o conservadorismo e pragmatismo de Troy; do outro, o pensamento modernista de Rose e a sua noção de que os tempos estão mudando e é preciso acompanhar essas transformações. Por isso, contrariando o marido, ela deixa que seu filho pratique futebol americano e pense em jogar por uma universidade, enquanto que Troy, ainda resignado pelas suas frustrações do passado, impede o menino de jogar ao justificar que ele só poderá ser um homem se trabalhar duro e tiver um emprego de verdade, o obrigando a finalizar com ele a cerca do quintal da casa.

Esse é apenas um dos embates do filme, que é todo construído respeitando o texto de August Wilson sob os pilares de dois atores talentosos e extraordinários no que fazem e, principalmente, a dinâmica de ser uma peça teatral dessa vez encenada e filmada cinematograficamente. Há uma cena, por exemplo, de Troy e Bono conversando que ajuda a explicar essa dinâmica, quando os dois vão se afastando do cenário principal e se posicionando no canto direito na tela. Uma outra mostra os dois amigos conversando e Rose ao fundo, costurando, como se estivesse repousando no palco apenas esperando o seu momento de falar. Não é uma dinâmica tão engessada quanto a de Lars Von Trier em Dogville ou Manderlay, porque a direção de Denzel Washington respeita os limites de levar a peça para o cinema, mas é uma tentativa clara de recriar a forma como é encenada teatralmente.

Um Limite Entre Nós é caracterizado por essa estrutura, mas que na verdade só funciona pelas atuações de Viola Davis e Denzel Washington, que entregam tudo que podem na atuação – com destaque ainda maior para Viola, que precisa enfrentar não apenas as frustrações do marido como também as suas próprias de tê-lo deixado controlar grande parte da sua vida mesmo que o seu respeito por ele continue intacto. E ainda que depois de ver Um Limite Entre Nós eu precise ficar agora pelo menos uns seis meses sem ouvir a voz de Denzel Washington do tanto que ele fala nesse filme, o texto de August Wilson está em plena conformidade ao transitar com enorme força entre o drama doméstico e o preconceito racial.

Assista o trailer:

Um Limite Entre Nós (Fences, 2016)
Direção: Denzel Washington
Roteiro: August Wilson (baseado na homônima peça)
Elenco: Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Myskelti Williamson e Russell Hornsby.
Duração: 133 minutos

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