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Vinyl e Better Call Saul dão voz às mulheres apesar de ambientes machistas

Vinyl e Better Call Saul são, atualmente, duas das principais séries que estão em exibição. E nessa semana, ambos os programas exibiram episódios que chamaram atenção pela forma como tratam as suas mulheres. Em Better Call Saul, o capítulo intitulado “Rebecca” foi inteiramente dedicado à Kim Wexler (Rhea Seehorn). Foi a primeira vez que a série deu tanto espaço para a personagem, após desenvolvê-la paulatinamente na primeira temporada.

No episódio, Kim Wexler está trabalhando no setor de Arquivos do escritório de advocacia Hemlin Hemlin McGill porque foi punida por Howard Hemlin, um dos sócios da firma, quando ele descobriu que ela havia ajudado Saul/Jimmy. Quando este chega tarde da noite com uma ideia para salvá-la, Kim responde: “não é você que me salva. Sou eu”. E aí a vemos trabalhando 20 horas por dias, praticamente sem ir pra casa enquanto reúne todos os contatos que conseguiu fazer em sua carreira na tentativa de conseguir algum cliente. E ela consegue, depois de muitas ligações e muitos “nãos”, mas também muita insistência.

Com esse capítulo, Kim ganhou um peso dramático dentro da série muito diferente daquele que Better Call Saul vinha construindo até então, de ser o par romântico de Saul/Jimmy e, quem sabe, a responsável por sua desilusão amorosa que faria com que ele se entregasse completamente à clandestinidade. Não se tratará disso, espera-se, não depois desse capítulo. Em vez de colocar Kim servindo de “escada” para a história de Saul/Jimmy, a série retrata uma mulher competente (que precisa mostrar isso o tempo inteiro justamente por ser mulher) e que tem a sua própria história para contar, independentemente do que aconteça com o protagonista.

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Devon usa de seu poder de sedução para ajudar o marido nos negócios. | Foto: Reprodução


Já em Vinyl, o episódio “He in Racist Fire” teve uma abordagem diferente e ousada. Considerando o ambiente em que as mulheres são retratadas na série, em meio às drogas e todo o círculo masculino que comanda as gravadoras (e uma competição acirrada entre elas), a série mostra que as mulheres não são apenas meros objetos de prazer, mas que possuem opinião e identidade. Nesse episódio, Devon (Olivia Wilde) tenta conquistar Hannibal (Daniel J. Watts) a pedido de Richie (Bobby Cannavale), mas a história do personagem e a forma em que é montada a situação nos leva a entender que essa é uma escolha dela, e que não está sendo colocada em uma situação constrangedora. Pelo contrário, seu marido é que se sente constrangido pelo seu desempenho, no fim das contas.

Devon tem interesse no sucesso dos negócios da American Century Records. Parte do seu trabalho na companhia de dança é arrecadar fundos e por isso faz todo sentido que ela questione o seu marido por não ter vendido a gravadora de uma vez para os alemães, ganhar muito dinheiro e não ter preocupações. Ela entende “o que precisa ser feito” para que os negócios tenham sucesso, como fica claro nesse mesmo episódio em diálogo que os dois têm ao telefone, quando ela demonstra preocupação com a iminente saída de Hannibal.

O interessante de observar o comportamento de Devon é também analisar a maneira como Cece (Susan Heyward) mostra-se sem reação, sem saber o que ela deve fazer, qual o seu papel ali. Vemos algumas mulheres em Vinyl que sabem como esse mundo funciona e estão nele porque querem, outras que não têm o mesmo estômago ou ainda não entenderam e se sentem fora do lugar. Outra personagem que se beneficia desse tipo de situação é Jamie Vine (Juno Temple), que faz o que agiu em proveito próprio para ganhar uma promoção após ter assinado o contrato com a banda Nasty Bits.

Tanto Vinyl quanto Better Call Saul tentam seguir o caminho certo para representar o seu núcleo feminino, sem mostrá-las como mulheres frágeis (ou coitadas), que não sabem o que querem e que estão ali para serem coadjuvantes ou serem tratadas como objetos sexuais dos homens. Por se ambientarem em épocas diferentes, além de falarem sobre assuntos igualmente diferentes, Vinyl e Better Call Saul merecem crédito por deixarem as suas mulheres terem liberdade para contarem suas próprias histórias.

Crédito da imagem: Reprodução

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