Séries

Vinyl se perde e termina temporada bem abaixo do que poderia

[ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS DA SEASON FINALE DE VINYL]

Vinyl começou muito bem. Aquele Piloto (leia mais aqui) dirigido por Martin Scorsese é intenso, quase que uma porrada sonora. E mesmo demasiadamente longo, não cansa em nenhum minuto sequer. A grande estreia e considerado o carro-chefe da HBO para o início de 2016, Vinyl tinha todos os elementos para dar certo: um time de peso por trás da produção e um elenco com talento para dar conta do recado. Mas a série no meio do caminho se perdeu e por isso final de temporada deixou aquele gostinho de que a série poderia ser bem melhor do que foi nesse primeiro ano de estreia.

Para nós aqui no Trívia, o principal problema da temporada se resumiu a duas tramas: 1) a desenfreada e incansável vida de Richie Finestra se drogando por todo canto e 2) a tentativa de misturar a história sobre os bastidores da indústria fonográfica com contornos de máfia e violência que trazia elementos muitos similares aos grandes filmes de Scorsese sobre o tema. E foi nesse caminho que Vinyl, infelizmente, se perdeu por completo.

A série investiu tempo desnecessário nessas tramas quando poderia desenvolver muito mais a cena musical de Nova York dos anos 70. Bem verdade que Vinyl tentou fazer isso ao colocar em cada episódio alguma figura importante. Como no Piloto que teve o New York Dolls e a aparição de Robert Plant, do Led Zeppelin. Ou mais tarde quando David Bowie também surgiu em um episódio dedicado a ele por conta do seu falecimento, ou Elvis Presley em fim de carreira tocando em Las Vegas, John Lennon afogando as mágoas em um bar da cidade e todo o circuito de casas de shows novaiorquinos e suas figuras ilustres e conhecidas como Lou Reed, Nico e Andy Warhol dando as caras aqui e ali.

Por um momento isso foi suficiente para deixar Vinyl interessante ao mesmo tempo que equilibrava a narrativa com os problemas de Richie e do seu casamento com Devon – além do grave problema financeiro que a sua gravadora (American Century Records) se enfiou. Mas foi uma pena que Vinyl não conseguiu manter a sanidade da sua narrativa – uma vez que o seu protagonista estava sempre fazendo coisas estúpidas e completamente drogado. E aí, no final, deixou uma impressão negativa em relação ao bom momento que teve quando estreou.

Foto: Reprodução/HBO
Foto: Reprodução/HBO

Calma, há também coisas boas!

Apesar dos erros, Vinyl para nós é uma das séries mais viciantes dessa temporada e não é uma completa decepção – pelo contrário. Como não se empolgar ao ver John Lennon, Lou Reed, David Bowie e tantos outros artistas sendo levados para a trama? Vinyl mostra um ambiente que é ao mesmo tempo fascinante (por conta desses artistas e de toda a Arte que eles estavam criando naquela época de muita efervescência cultural), mas também um ambiente perigoso, mesquinho e sem espaço para ingenuidades. Lester Grimes se deixou ser ingênuo e vimos o seu futuro ser jogado na lata do lixo no estalar de dedos.

Nos altos e baixos da narrativa, a performance do Nasty Bits finalmente aconteceu na season finale quando a banda liderada por Kip Stevens abre o show do New York Dolls. E alguns dos melhores momentos em alguns episódios foi justamente a dinâmica de gravação no estúdio e o nascimento de uma nova gravadora, a Alibi Records, que é formada na tentativa de estabelecer um diálogo com os adolescentes e da música ser uma espécie de salvação para eles. Vinyl teria caminhos mais fáceis para falar isso, mas escolheu uma forma difícil de fazer que quase levou tudo por água abaixo.

Foto: Reprodução/HBO
Foto: Reprodução/HBO

Vinyl ainda pode ser salva

A pergunta que muita gente se fez é: “será que Vinyl ainda pode ser salvo?”. E a resposta é “sim, pode”. Pelo menos é o que a HBO vai tentar para a segunda temporada com a surpreendente demissão do roteirista, co-criador e showrunner da série, Terrence Winter (Boardwalk Empire, The Sopranos, O Lobo de Wall Street).

Está na cara que ele cometeu alguns erros que simplesmente empacaram a série. O homicídio de Buck Rogers cometido por Joe Corso e Richie Finestra não deveria ter acontecido daquela forma. Tudo aquilo que aconteceu no primeiro episódio deixou a série profundamente envolvida em um crime desnecessário quando a estrutura narrativa deveria se concentrar na música. E somente nisso. Parece que Terrence Winter não confiou tanto no gênero “uma série musical” e aí precisou envolver uns gângsters para torná-la mais atraente. E deve ter sido justamente isso que afastou muita gente.

Só de na season finale não ter nenhuma menção à Devon já é um erro que mostra o quanto a história foi atropelada na tentativa de resolver um problema, isto é, achar a saída para um labirinto no qual os próprios roteiristas se colocaram. Winter será agora substituído por Scott Z. Burns (O Ultimato Bourne) e Max Borenstein (Godzilla). Ambos terão a tarefa difícil de salvar Vinyl de um cancelamento precoce de uma série que tem muito a evoluir e que para os amantes da música é completamente fascinante. Deixamos uma dica: vamos apenas falar de música na próxima temporada, por favor!

Foto: Reprodução/HBO
Foto: Reprodução/HBO

Som na caixa!

E como queremos que a música seja o tema central da série, não poderíamos encerrar esse texto sem falar da trilha sonora. As dezessete faixas do Volume 1 de Vinyl foi divulgada recentemente. Fizemos uma playlist no Spotify com as canções que mais curtimos.

Tem Julian Casablancas (vocalista dos Strokes) cantando Velvet Underground (“Venus in Furs”, “Run, Run, Run” e “White Light / White Heat”), tem a cantora Charli XCX fazendo cover dos Stooges em “No Fun”, os ótimos Chris Cornell e Elvis Costello cantando versões de “Stay With Me Baby” (Terry Reid) e “Back Stabbers (O’Jays), respectivamente.

Além desses nomes, colocamos em nossa playlist The Arcs, Iggy Pop e Royal Blood. Aproveite e ouça abaixo:


Crédito da Imagem: Divulgação/HBO

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