Cinema

‘Visages, Villages’ é uma carta de amor às pessoas e à arte

Mais do que um registro, uma fotografia é a chance de imortalizar um momento (uma lembrança) que provavelmente será perdida nos cafundós da nossa mente. Não viveremos para sempre, essa é uma certeza. O que se pode fazer é saber como viver para contornar justamente o inevitável. A diretora francesa Agnès Varda, também conhecida como a mãe da Nouvelle Vague e uma das mais importantes cineastas da história do cinema, sente no auge dos seus 88 anos a inevitabilidade da morte. Porém, ao contrário de lamentar uma certeza do que vai acontecer algum dia, ela se une ao fotógrafo francês JR, conhecido mundialmente por suas exposições de rua e que chamaram a atenção de Agnès Varda, para juntos iniciarem um projeto que vai revelar muito mais sobre eles mesmos.

É numa intersecção de coincidências que de algum forma ligaram esses dois artistas que surge o lindo documentário Visages, Villages, indicado ao Oscar de Melhor Documentário (confira a lista aqui). Ambos viajam pelo interior da França à bordo de um pequeno caminhão onde também funciona o estúdio de fotografia de JR no qual ele tira e imprime as imagens em poucos minutos. Essa inovação logo atraiu também Agnès Varda para acompanhar o projeto de JR em suas colagens dessas fotografias em casas abandonadas, fachadas de prédios já deterioradas que com os rostos de pessoas comuns (mas com histórias incríveis) transformam a paisagem, dando vida ao que parecia tão mórbido e caído.

Leve, descontraído, engraçado e emocionante, as andanças de JR e Varda nos faz conhecer pessoas comuns cujas histórias são simplesmente maravilhosas. Desde a senhora que é a última moradora de uma rua repleta de casas iguais e que se recusa a sair e deixar suas memórias para trás uma vez que o governo quer demolí-las, até as esposas de estivadores que ganham voz representadas por um enorme totem que ornamentam dezenas de contêineres de cargas no porto dos arredores de Paris. Mas acima de tudo, Visages, Villages passa uma mensagem poderosa sobre a presença delas em um lugar preenchido majoritariamente por homens. Visages, Villages não deixa de ser também um passeio através das próprias memórias de Agnès Varda, como nas cenas em que ela visita túmulos de amigos que já se foram.

Visages, Villages também chama atenção pela admiração mútua que um tem pelo outro. Não só no começo do filme, quando JR lembra dos filmes de Varda e que marcaram a sua vida, mas isso vai sendo pontuado ao longo de toda a narrativa – inclusive a obstinação de Varda de fazer JR tirar os óculos escuros, do mesmo jeito que ela convenceu o diretor Jean-Luc Godard a fazê-lo durante as filmagens do curta-metragem Les Fiancés du Pont Mac Donald (1961) ao lado da sua musa Anna Karina. Godard, aliás, que poderia ter aparecido em Visages, Villages em uma das sequências que mais queremos abraçar Varda ao mesmo tempo que poderíamos socar Godard, quando ele se recusa a receber Varda e JR em sua casa no interior da França.

Ruim para Godard. Porque a história de Agnès Varda é bela e independe desta figura que, sim, foi importante para o movimento da Nouvelle Vague e ajudou a reformular a linguagem cinematográfica. Algo que Agnès Varda também sempre o fez, sendo uma transgressora das imagens, transformando o que parece banal e cotidiano em poesia. Visages, Villages capta essa essência que tanto pode ser vista em sua filmografia, seja nos filmes de ficção ou de não-ficção. JR presta uma bela homenagem à diretora, que sabe que está perto da morte mas não está se importando com isso, vivendo intensamente e exibindo ainda toda sua vitalidade e amor ao cinema. Visages, Villages é uma carta de amor às pessoas, aos seres humanos e suas histórias, mas também ao próprio cinema.

Assista o trailer:

Visages, Villages (Visages, Villages, 2018)
Direção: Agnès Varda e JR
Roteiro: Agnès Varda e JR
Duração: 89 minutos

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