‘Voyeur’ narra bastidores de livro polêmico escrito por Gay Talese

Mesmo o mais experiente e condecorado repórter se sente inseguro em algum ponto da história que está contando. Faz parte do que é ser jornalista. E conviver com essa insegurança é o que dá um senso de preocupação de passar por todos os pontos de checagem: ter mais de uma fonte para confirmar uma história, investigar registros públicos, pesquisas em outros meios para confirmar informações, e outras técnicas. Tudo isso para devolver ao repórter uma segurança e um controle que se perdem nesse processo.

Gay Talese é um desses jornalistas investigativos que mais podem ensinar sobre isso. Seu livro “Honra Teu Pai” (1971), um livro-reportagem que relata sobre a máfia por quem observou de dentro, estando infiltrado, como as coisas aconteciam, é sempre lembrado quando se pensa em seu nome (e até hoje obrigatório para qualquer estudante da área). Em seu último livro, “O Voyeur” (2016), sua reputação foi em parte manchada ao confiar em Gerald Foos, o auto-intitulado Voyeur, que procurou Gay Talese na década de 80 para contar a sua história (ou expor sua obsessão) de observar seus hóspedes durante as décadas em que foi dono de um motel nos Estados Unidos.

O documentário Voyeur, dirigido por Myles Kane e Josh Koury (ambos conhecidos apenas por trabalhos nas séries 30 for 30 da ESPN) e disponibilizado recentemente pela Netflix Brasil, narra os bastidores dessa reportagem que Gay Talese está escrevendo para a revista The New Yorker, sendo que posteriormente seria (e foi) lançada também em livro impresso. Os documentaristas acompanham as entrevistas conduzidas por Talese com Foos, recriam como ele fazia para observar seus hóspedes e quais as histórias mais perturbadoras coletadas dessa experiência. Por fim, mostram a tensão estabelecida entre Talese e Foos a partir do momento que a história é descreditada por uma investigação do The Washington Post.

Tudo isso soa muito interessante de acompanhar, apesar da figura repugnante e obsessiva de Foos – mas também complexa e misteriosa com toda sua obsessão de colecionador como bem mostra o documentário em determinado momento. Porém, o que mais me chama atenção em Voyeur é acompanhar o processo de Gay Talese, em como ele se interessa por esse solitário e perturbador personagem, confiando em uma única fonte para contar uma história que desde o princípio soava fascinante. As inquietações, a pressão, a insegurança e o desafio de contar (bem) a história foram captadas pelo documentário, que oferece um estudo fascinante de duas personas completamente opostas – mas que desenvolveram, talvez, uma amizade e uma obsessão mútua um pelo outro.

Mostrando nitidamente a passagem de tempo no documentário quando vemos Foos sem e com cabelos brancos e mais frágil, Voyeur contorna as descrenças de Foos e sua esposa Anita, e também quando os documentaristas são confrontados na frente das câmeras por Talese por supostamente estarem induzindo certas respostas dadas por Foos, além de não se esconder nas controvérsias que aparecem em todo o processo. Feito até talvez como uma ideia de humanizar, e de confessar, a história que é contada no livro, manchada pelo fascínio de Foos em ser descoberto, Voyeur oferece uma visão que se equilibra entre aterrorizante, um homem espionando hóspedes por mais de três décadas, e fascinante, um autor renomado em sua busca incessante pela perfeição de contar uma boa história.

Assista o trailer:

Documentário
Voyeur
(Voyeur, 2017)
Direção: Myles Kane, Josh Koury.
Duração: 95 minutos

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