Esta é a primeira vez que faço uma lista de retrospectiva dos acontecimentos do ano. Estou acostumado a elencar os melhores filmes, as melhores séries. Mas nunca havia me ocorrido o quanto também poderia ser interessante olhar para tudo aquilo que o ano entregou, sem perder a essência do blog: falar sobre o que costumo acompanhar e refletir.
Nesse sentido, 2025 já se apresenta como um ano que ficará guardado na memória por diversas razões. A mais especial delas é o fato de o Brasil ter conquistado, finalmente, o seu primeiro Oscar. Isso veio logo depois do governo Bolsonaro, que basicamente sequestrou o fundo audiovisual e tornou ainda mais difícil a produção local. Ainda assim, resistimos.
Em 2025, também testemunhamos alguns retornos que pareciam improváveis. Daniel Day-Lewis abandonou a aposentadoria anunciada há quase sete anos para protagonizar um filme dirigido pelo próprio filho. E, como se não bastasse, a banda inglesa Radiohead também anunciou sua volta aos palcos com uma mini-turnê pela Europa, revisitando seu vasto catálogo — a primeira vez que o grupo saiu em turnê sem apresentar nenhuma música nova.
Eu não disse que tinha bastante coisa? Agora, confira a lista completa:

10. Adolpho Veloso entra no radar de Hollywood
O diretor de fotografia brasileiro, com o ótimo e elogiado trabalho no filme Sonhos de Trem, está prestes a ser indicado à categoria de Melhor Fotografia no Oscar 2026. É formidável o que ele realiza no longa-metragem, que conta com passagens intensas de câmera na mão, tilts que simulam com brutal realismo árvores sendo arrancadas do chão e um estilo visual que aproxima os atores do espectador.

09. Tiny Desk estreia versão brasileira
Estreado oficialmente em 7 de outubro, o Tiny Desk Brasil vem mostrando a variedade e a força da música brasileira. Começou com o pernambucano João Gomes e já contou com nomes como Ney Matogrosso, Sandra de Sá, Tim Bernardes e Péricles, entre outros. Até o momento, a melhor apresentação, para mim, foi a de Arnaldo Antunes. Não apenas pelas razões óbvias — sou fã de seu trabalho há muitos anos —, mas pela energia que ele trouxe e pela escolha certeira do repertório. E todo mundo com o mesmo figurino: isso é muito Arnaldo.

08. Netflix compra Warner Bros. Discovery
A indústria de Hollywood como a conhecemos hoje deve passar por uma mudança profunda quando os reguladores aprovarem a compra da Warner Bros. Discovery pela Netflix — um processo que deve levar de um ano e meio a dois anos para ser concluído. Ainda é uma incógnita o que exatamente vai acontecer, mas não faltam preocupações levantadas por exibidores e por sindicatos que representam os profissionais diretamente impactados. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

07. Dave Chappelle solta, de surpresa, novo especial de comédia
De surpresa, um dos maiores comediantes do nosso tempo lançou um novo especial de stand-up na Netflix antes do fim do ano. The Unstoppable está entre seus melhores trabalhos, mostrando um Dave Chappelle atento ao mundo atual, ao mesmo tempo em que reforça a ideia de que é justamente em tempos difíceis que precisamos nos apoiar uns nos outros. Ele diz que “tudo isso vai passar”. Tomara que passe mesmo — viver em uma era de redes sociais e extrema polarização é, sem dúvida, um peso considerável.

06. Cancelamento do tradicional The Late Show with Stephen Colbert
O mundo anda tão fora do eixo — especialmente nos Estados Unidos — que o governo Trump tem intensificado ataques à mídia tradicional e a figuras específicas. Stephen Colbert é uma delas. O tradicional The Late Show foi cancelado pela CBS, controlada pela Paramount, como parte de um acordo para encerrar uma disputa judicial entre Trump e a própria Paramount (ao menos, é isso que se especula). Essa parece ser a única explicação plausível para o cancelamento de um talk show no ar há mais de 32 anos e que, em sua faixa horária, lidera a audiência há pelo menos cinco. Agora, a pergunta que fica é: qual será o próximo passo de Colbert? O The Hollywood Reporter chegou a provocar recentemente — será que ele concorre às eleições presidenciais de 2028? Uma piada que muita gente gostaria que virasse realidade.

05. Retorno de Daniel Day-Lewis
Após oito anos aposentado, o maior ator do nosso tempo deixou a aposentadoria para atuar em Anemone, projeto desenvolvido em parceria com o filho, Ronan Day-Lewis, que estreia aqui como diretor. Ainda não tive a chance de assistir ao filme — a estreia no Brasil está prevista apenas para fevereiro de 2026 —, mas já existe um entusiasmo natural diante da possibilidade de vermos Daniel Day-Lewis novamente nas telas. Na trama, o filme acompanha a construção e o desgaste de laços familiares entre pais, filhos e irmãos.

04. Radiohead volta aos palcos
O ano de 2025 também marcou a volta da maior banda de rock de todos os tempos. Sim: após um hiato de sete anos, o grupo liderado por Thom Yorke realizou uma série de shows pela Europa. Pela primeira vez, não se tratava de apresentações voltadas a músicas inéditas, mas de uma revisita ao próprio catálogo. Nick Cave, que esteve no show da O2 Arena, em Londres, descreveu a experiência como a prova de “como um grupo de indivíduos pode se reunir e criar um som absolutamente singular, e de como outras pessoas conseguem se conectar a essa visão tão particular como se ela fosse a sua própria experiência”.

03. Invasão brasileira no Festival de Cannes
O Brasil fez bonito — e história — no Festival de Cannes deste ano com O Agente Secreto. Kleber Mendonça Filho levou a Palma de Melhor Diretor, enquanto Wagner Moura foi premiado como Melhor Ator. Ali, o festival funcionou como um termômetro importante, ao indicar que o filme tinha fôlego para trilhar um caminho semelhante ao de Ainda Estou Aqui. E isso vem se confirmando, com indicações ao Globo de Ouro e uma posição bastante favorável para conquistar mais estatuetas internacionais para o país.

02. Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui pararam o Brasil
O clima era de Copa do Mundo. O Carnaval parou em vários cantos do país para aplaudir o cinema brasileiro. Fernanda Torres e o longa Ainda Estou Aqui emocionaram o público. Foi quase um grito de liberdade, especialmente após anos de sucateamento e descaso que o governo Bolsonaro impôs ao cinema e à produção audiovisual brasileira como um todo.

01. O Oscar é do Brasil
Eu sempre sonhei com o momento em que o Brasil ganharia um Oscar — juro. Ficava me perguntando quando viveria isso. Quando Penélope Cruz abriu o envelope e anunciou: “the Oscar goes to… I’m Still Here, from Brazil”, veio o alívio imediato. “Ufa, finalmente temos um Oscar.” Não que o Brasil precise desse tipo de prêmio para validar sua qualidade: nosso cinema é tão potente quanto qualquer outro, além de ser um dos mais diversos do mundo. Ainda temos muitos problemas a resolver — e seria fundamental aproveitar esse momento histórico para fortalecer, de vez, nossa política cultural e audiovisual.

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