Kelly Reichardt subverte os filmes de fuga no inconstante “The Mastermind”

Kelly Reichardt subverte os filmes de fuga no inconstante “The Mastermind”

O novo filme de Kelly Reichardt (Certas Mulheres, First Cow), The Mastermind, traz uma história contada dentro de um gênero que sempre me interessa: filmes de roubo. É interessante acompanhar personagens discutindo o plano, executando-o, escapando e chegando àquele desfecho em que tudo simplesmente vai por água abaixo e fica claro que não existe plano perfeito. Aqui, porém, ao contrário de outros títulos do gênero, Reichardt — que escreve, dirige e monta — subverte a tensão: esqueça perseguições, explosões e sequências de ação eloquentes. The Mastermind é, acima de tudo, um estudo de personagem, que às vezes funciona muito bem e, em outras, nem tanto.

É a partir dessa proposta que Reichardt acompanha J.B. Mooney (Josh O’Connor, excelente no papel), um jovem branco da elite familiar da região de Massachusetts que parece nutrir um gosto peculiar por roubar coisas. Casado com Terri (Alana Haim, prejudicada pelo pouco tempo de tela, mas ainda assim eficaz em sua composição) e pai de dois filhos, JB acredita ser um grande artista na arte de roubar e sair impune. Talvez por viver nessa realidade em que se enxerga como um gênio, ele decide cometer o roubo de quadros em um pequeno museu, contando com a ajuda de dois comparsas.

À primeira vista, o crime parece ter ocorrido sem grandes problemas. No entanto, a situação se complica quando um dos parceiros de JB é preso em uma tentativa frustrada de assalto a um banco. Desejando se vangloriar do roubo ao museu, ele acaba entregando JB à polícia. Filho do juiz local, JB acredita que conseguirá convencer os policiais de que não participou do crime — confiante, talvez, na proteção que imagina receber do pai. Mas ele se engana quanto a isso, e sobre muitas outras coisas, e acaba se tornando um fugitivo.

Ambientado nos anos 1970, The Mastermind se revela muito mais um estudo de personagem do que propriamente uma trama sobre roubo. JB parece alheio a tudo o que acontece ao seu redor, inclusive ao pano de fundo histórico da Guerra do Vietnã. O que o move é apenas a fantasia de se tornar um famoso ladrão de arte. Esse desejo pode ser lido como uma tentativa de chamar a atenção do pai, um homem rígido que exige do filho um trabalho sério e uma postura mais responsável. Ao mesmo tempo, JB depende financeiramente da família, recorrendo constantemente à mãe, que o ajuda sempre que ele pede dinheiro emprestado — mesmo sabendo que jamais receberá de volta.

Reichardt acompanha essa personalidade intrigante com paciência, explorando um protagonista tão quieto e enigmático quanto a trilha sonora de jazz composta por Rob Mazurek. Aos poucos, fica evidente que o suposto “plano perfeito” de JB é cheio de falhas, sobretudo no que diz respeito ao passo seguinte: o que fazer depois de roubar os quadros e como transformá-los em dinheiro.

Essa fragilidade se torna ainda mais clara porque JB nunca deixa explícito o verdadeiro motivo de ter cometido o roubo. Suas motivações permanecem uma incógnita. E, a partir do momento em que o crime é descoberto e ele se torna suspeito, JB é forçado a fugir e a se afastar da própria família. Surge então a dúvida: seria isso o que ele desejava desde o início? Esse estilo de vida errante seria mais atraente do que o caminho esperado de acordar, trabalhar e voltar para casa? The Mastermind não oferece essas respostas – e também não está interessado nisso.

Por conta dessa personalidade errática — e até de uma certa superioridade que JB emana —, o filme começou a me deixar impaciente em alguns momentos. Especialmente quando Reichardt nos obriga a acompanhar JB mudando os quadros de lugar repetidas vezes, subindo e descendo uma escada pelo menos cinco vezes. Entendo o tom de delicadeza que a narrativa busca, mas sequências como essa acabaram me afastando um pouco do filme.

Ainda assim, quando chegamos ao fim de The Mastermind, a impressão que fica é a de termos acompanhado alguém vivendo uma ilusão completa. Dentro dela, JB se enxerga como uma figura poderosa e extraordinária. A realidade, porém, é bem diferente. E seu desfecho não poderia ser mais irônico: tão alheio à Guerra do Vietnã, ao que passava na televisão e aos protestos da época, JB acaba justamente selando o próprio destino em meio a um desses movimentos anti-guerra.

The Mastermind (Idem, 2025)

Diretor: Kelly Reichardt
Roteiro: Kelly Reichardt
Elenco: Josh O’Connor, Alana Haim, Jasper Thompson, Bill Camp e Hope Davis
Duração: 110 minutos
Disponível: MUBI

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