As relações familiares são cercadas de muitos mistérios. Hoje, já adulto, percebo isso com uma nitidez que talvez eu não tivesse se pensasse no assunto dez anos atrás. E, cada vez que olho para a família em que cresci — a dos meus pais, e não necessariamente a que estou construindo agora —, entendo que a ideia de perfeição que eu tinha era, em boa parte, uma fantasia. É justamente algo dessa natureza que está no centro das três histórias que compõem Father Mother Brother Sister.
Dirigido por Jim Jarmusch, que não lançava um filme desde Os Mortos Não Morrem (2019) e que, há alguns anos, falou publicamente sobre seu descontentamento com a indústria cinematográfica ao se dedicar à música, Father Mother Brother Sister parece interessado em mostrar o quanto seguimos desconhecidos mesmo dentro dos nossos próprios círculos familiares.
Ao longo do filme, Jarmusch preenche a tela com encontros que revelam que, apesar de compartilharmos origens e memórias, a distância entre as pessoas parece crescer com o tempo. No primeiro capítulo, Father, Jeff (Adam Driver) e sua irmã Emmy (Mayim Bialik) atravessam uma estrada tomada pela neve para visitar o pai (Tom Waits, em ótima atuação). Os três não se reúnem há algum tempo, desde um episódio de descontrole do patriarca no funeral da mãe.
O motivo da visita não tem nada de extraordinário: são apenas dois filhos querendo saber se o pai está bem. Ainda assim, a cena define o tom do filme. Há silêncios constrangedores, pausas longas e aquele desconforto tão reconhecível de encontrar um parente distante sem saber exatamente o que dizer.
Esse mesmo sentimento reaparece em Mother, agora ambientado em Dublin. Nele, a mãe (Charlotte Rampling, sempre precisa) prepara o chá para receber as filhas, Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps). Sentadas diante de uma mesa farta de doces, elas compartilham um encontro marcado por uma rigidez tão evidente que tudo parece acontecer por obrigação. Ainda que exista amor ali, ele não se manifesta da forma calorosa e idealizada que tantas vezes se vende sobre a convivência familiar.
Esse aspecto prepara o terreno para a história final, Brother Sister, quando Jarmusch nos leva a Paris para acompanhar os irmãos gêmeos Billy (Luka Sabbat) e Skye (Indya Moore). Eles se reencontram para resolver questões ligadas aos pais, mortos recentemente em um acidente de avião, enquanto revisitam lembranças da infância por meio de fotografias antigas. É o capítulo que mais se aproxima de alguma ternura entre familiares. Não por acaso, é também o escolhido para encerrar esse ciclo.
Mesmo sem uma ligação direta entre as histórias — já que somos lançados em cada uma delas quase de paraquedas —, há elementos que costuram o filme. O uso recorrente do vermelho, por exemplo, funciona menos como símbolo de explosão emocional e mais como a presença silenciosa de sentimentos que continuam vivos, mesmo quando ninguém consegue nomeá-los. Tradicionalmente associada ao amor, ao desejo, à raiva e à intensidade, a cor surge aqui carregando todas essas possibilidades ao mesmo tempo.
Em um filme atravessado por relações desgastadas, silêncios acumulados e afetos interrompidos, o vermelho aparece nos figurinos como sinal de sentimentos que continuam ali: mágoas antigas, carinho reprimido, tensões nunca resolvidas e até um amor que existe, mas já não sabe mais como se expressar.
Outro elemento constante é a água, que aponta para um movimento diferente. Jarmusch parece usá-la como tentativa de apaziguamento entre essas pessoas. Ela está nas conversas banais, nos pequenos gestos e até na discussão sobre brindar com água — algo aparentemente trivial, mas que revela o esforço dos personagens por algum tipo de conexão perdida.
Father Mother Brother Sister é, no fim, um filme sobre distâncias emocionais. Jarmusch transforma elementos simples do cotidiano em sinais discretos de tudo aquilo que seus personagens não conseguem dizer diretamente. Há um tom melancólico em cada capítulo, reforçando a solidão que atravessa essas histórias. Mas talvez exista também algo mais delicado ali: a ideia de que, mesmo quando o afeto parece gasto ou enterrado, ele nunca desaparece por completo.

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