Breves impressões: A voz suprema do blues; Bela Vingança; e Malcolm e Marie

Como divulgamos no perfil do blog no Instagram, um dos objetivos para 2021 é reativar esse espaço com opiniões sobre o que assistimos, lemos, entre outros assuntos. Enquanto tentamos nos esforçar para isso acontecer, continuamos vez ou outra fazendo uma das coisas que mais gostamos: assistir filmes, séries e ler livros. Nessa primeira postagem em 2021, damos breves impressões sobre os últimos que assistimos.

A Voz Suprema do Blues

Aquele que se tornou o último filme do ator Chadwick Boseman, que morreu em 2020 e chocou todo mundo, é uma daquelas experiências em que de verdade vemos as características e o formato de uma peça teatral levadas a uma estrutura de imagem em movimento. 

Inspirado no texto de August Wilson, o filme acompanha a cantora e estrela negra Ma Rainey (Viola Davis), também conhecida como a Mãe do Blues, e seus músicos (também negros) durante uma sessão de gravação no estúdio. Quase que confinados em um pequeno espaço enquanto ensaiam à espera da grande estrela chegar, a banda e a própria Ma Rainey estão sempre falando sobre suas frustrações, ambições e desejos – ao mesmo tempo que tudo parece distante da realidade deles, uma vez que vivem sob humilhações e incertezas impostas pelas leis de Jim Crow.

Cada personagem ganha seu espaço na tela e sua chance de brilhar, mas ninguém se destaca menos que Viola Davis, obviamente, e do que Chadwick Boseman. Ainda que já estejamos acostumados com tudo que Davis pode representar em cada personagem que escolhe, não é surpresa que ela entregue mais uma grande atuação. Porém, ainda que não seja também nada surpreendente, é Boseman quem de fato rouba os holofotes. Sua interpretação como Levee, o saxofonista ambicioso que deseja seguir carreira solo, é um ímã para o olhar do espectador que o persegue em cada ação mesmo quando não está falando.

Eficiente na estética visual e em deixar também os personagens improvisarem enquanto convivem nesse período de ensaio, A Voz Suprema do Blues é também cheio de detalhes quanto ao modo artesanal de gravação da época, o que só eleva o talento dos grandes artistas negros desse período.

Bela Vingança

Exibido no Festival de Sundance de 2020, Bela Vingança já tinha evocado grande discussão que foi abafada em razão da preocupação e urgência com que a pandemia estava ganhando forma. Mas quando o filme foi finalmente lançado, já no final do ano passado, o debate foi retomado. Protagonizado por Carey Mulligan, o filme acompanha Cassie, uma ex-estudante de medicina que larga a faculdade após a morte da sua melhor amiga em decorrência de um estupro durante uma festa universitária para se concentrar em uma única missão: se vingar de todo homem que tenta se aproveitar das mulheres.

Bela Vingança também marca a estreia na direção de Emerald Fennell. E a diretora encontra em Mulligan a faceta para o processo de dor pela perda da melhor amiga que a conduz por um caminho carregado de rancor. Não à toa o filme ganhou também repercussão por discutir diretamente ações que vieram em decorrência do movimento #MeToo. Ainda que Bela Vingança seja inconsistente, a história não deixa de causar catarse no espectador, especialmente no terceiro ato do filme.

Malcolm e Marie

O mais recente filme que foi assistido por aqui estreou há poucos dias no streaming da Netflix: Malcolm e Marie. Bastante aguardado, por ter sido um dos poucos filmes filmados em meio à pandemia e seguindo vários protocolos de segurança (inclusive o set com uma equipe bem reduzida), além de trazer dois dos atores mais comentados do momento (Zendaya, por Euphoria e Dune, e John David Washington, por Tenet e Infiltrado na Klan), a produção acompanha um casal, ele um jovem cineasta em ascensão, e ela uma atriz com potencial.

Dirigido por Barry Levinson, responsável pela série da HBO Euphoria, Malcolm e Marie funcionaria perfeitamente se fosse um curta-metragem. Os primeiros 20 minutos soam até promissores. Mas a verdade é que depois somos sugados para o furacão de uma discussão interminável entre os dois, iniciada justamente por ele em seu discurso não ter agradecido o apoio e inspiração dados por ela. A briga se transforma em um ciclo repetitivo irritante e que nunca ganha ritmo. Em nenhum momento a história em si da discussão sustenta o filme, ainda que ambos os atores tentem.

Também é incompreensível como Levinson sensualiza Zendaya em praticamente cada tomada, a expondo com poucas roupas ou quase nenhuma em alguns momentos, enquanto Malcolm apenas bebe (aparenta estar bêbado em uma cena para logo em seguida estar completamente normal), canta e dança pela casa em uma mise-en-scène também pouco criativa – como aquela sequência em que a câmera, fixa no próprio eixo, enquadra Marie cozinhando e por vezes acompanha Malcolm em travelling andando em círculo enquanto verborragia sem parar sobre sua (inquestionável) arte.

É inquestionável a beleza estética de Malcolm e Marie, pois a decisão de filmar em preto e branco é especialmente acertada em dar romantismo e charme ao filme. Apesar de funcionar enquanto linguagem, Malcolm e Marie não soa verdadeiro e só nos obriga a acompanhar uma noite de discussão de um casal que poderia ser encurtada se ambos decidissem logo dormirem de uma vez.

Vinícius Silva
Jornalista e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. É viciado em filmes e séries, e ama discutir sobre isso. Gosta de escutar podcasts e rever filmes de Martin Scorsese.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: