O cineasta iraniano Jafar Panahi já foi condenado algumas vezes em seu país natal, acusado de propaganda contra o regime autoritário camuflado de governo. A sentença foi de seis anos de prisão e vinte sem poder exercer seu ofício. Por isso, assistir a qualquer um de seus filmes é também apreciar sua resistência.
Apesar da censura, Panahi continua usando sua criatividade para entregar filmes que são verdadeiros milagres. Veja os casos de Isto Não é um Filme (2011), documentário que ele conseguiu realizar com a ajuda do documentarista Mojtaba Mirtahmasb para retratar a rotina de sua prisão domiciliar. Após ser liberado da prisão e ainda sem poder exercer sua profissão, ele se torna taxista e faz Táxi Teerã (2015), uma joia na qual grava corridas misturando personagens reais e atores.
Agora, em Foi Apenas um Acidente, mais uma obra filmada na clandestinidade, Panahi se volta para suas memórias do período em que ficou no presídio. Sua soltura causou enorme comoção — me recordo bem — e só ocorreu porque ele decidiu fazer greve de fome por dez dias. A partir dos relatos de prisioneiros que passaram por interrogatórios violentos, além de sua própria experiência, na qual seus olhos ficavam a maior parte do tempo vedados, surgiu a ideia de Foi Apenas um Acidente.
A narrativa acompanha Vahid (Vahid Mobasseri), que acredita ter sequestrado seu torturador dos tempos em que esteve preso pelo regime. Mas Vahid não tem certeza e parte em busca de ajuda para confirmar a identidade de Eghbal (Ebrahim Azizi). Assim, outros dissidentes se juntam a ele no caminho e, juntos, tentam confirmar a identidade desse homem que deixou cicatrizes profundas e irreparáveis em suas vidas.
Foi Apenas um Acidente confronta o espectador com a questão central que ronda o grupo enquanto tentam chegar a um acordo: será que a vingança vale a pena? Panahi faz questão de mostrar que esses personagens não são capazes de matar ou de fazer qualquer mal a alguém. É o oposto, por exemplo, do que vemos quando Eghbal surge pela primeira vez, logo no início do filme, dirigindo por uma estrada escura com sua família e atropelando um cachorro. Ele não viu o animal — talvez fosse até impossível vê-lo —, mas Panahi o enquadra sob a luz vermelha da lanterna do carro, enquanto não há qualquer sinal de arrependimento em seu rosto ao mover o corpo do animal para longe do veículo.
Mesmo com situações dramáticas como essa e com relatos tão vívidos das torturas sofridas pelos personagens, o filme remete a momentos tragicômicos que parecem extraídos diretamente do catálogo dos irmãos Coen. A diferença está na raiva e no desespero presentes em Foi Apenas um Acidente, pois sentimos a comoção em cada um desses relatos abomináveis. Panahi permite que esse sentimento invada a tela porque quer, firmemente, que o espectador experimente o mesmo dilema e a mesma agonia de seus personagens.
Em grande parte do filme, o diretor consegue esse efeito. É claro que, em algumas sequências, isso soa excessivamente longo ou repetitivo, como nos vinte minutos finais, que Foi Apenas um Acidente leva para atingir seu clímax. Nesse momento, Eghbal finalmente confessa sua identidade e justifica seus atos dizendo que faz tudo pelo sistema. O mesmo sistema que, em outras passagens do filme, constrange o espectador ao mostrar como suborno e corrupção são práticas cotidianas de quem vive no país no nível mais comum da sociedade.
Com todas essas questões em jogo, Foi Apenas um Acidente não é um filme de vingança, muito menos uma narrativa de ação — apesar de vermos a van com os dissidentes e um prisioneiro cruzando Teerã se transformar em uma aventura e tanto. A questão central é como preservar a memória dessas lembranças ruins narradas pelos personagens para que funcionem como um alerta: a repressão imposta pelo regime iraniano não pode continuar impune. Assim, cada personagem decide como irá sobreviver a isso. E não reproduzir a conduta de seus adversários é exatamente o que os torna humanos.
Foi Apenas um Acidente (Yek tasadof-e sadeh, 2025)
Diretor: Jafar Panahi
Roteiro: Jafar Panahi
Elenco: Vahid Mobasseri, Marim Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten e Mohamad Ali Elyasmehr
Duração: 103 minutos
Disponível: Cinemas.

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