“Hamnet” é um bom filme apesar do desespero de comover

“Hamnet” é um bom filme apesar do desespero de comover

Hamnet, dirigido por Chloé Zhao (que também assina o roteiro ao lado da autora Maggie O’Farrell), parece construído com extremo cuidado para levar o público às lágrimas. A primeira pergunta que se ouve por aí não é se o filme é bom, mas se você chorou assistindo. A minha resposta é que, sim, Hamnet é um bom filme — mas passei longe de chorar. E isso não significa insensibilidade. Muito pelo contrário.

Talvez a explicação seja simples: quando se percebe que o filme pede, quase implora, pela comoção, surge uma reação natural de afastamento. Tudo soa calculado demais. Em parte, é essa sensação que Hamnet provoca.

Adaptado do romance de O’Farrell, o longa acompanha o casal Agnes (Jessie Buckley) e Will — sim, o próprio William Shakespeare, aqui tratado apenas como Will e interpretado por Paul Mescal — desde o início do relacionamento até o nascimento e a criação dos três filhos. Sabemos desde o princípio que um deles, Hamnet, morrerá. Existe, portanto, uma espera silenciosa por esse acontecimento que mudará a vida da família — e que, supostamente, inspirará Will a escrever Hamlet como parte de seu luto.

Ainda assim, o foco do filme não está exatamente em Will, mas em Agnes. Tendo perdido a mãe ainda na infância — uma figura associada aos saberes da natureza e à cura —, Agnes carrega esse legado consigo. O filme reforça essa herança ao destacar sua conexão com a terra, as árvores, os cheiros e os elementos naturais.

É nesse ponto que, para mim, Hamnet funciona melhor. Chloé Zhao cria imagens que parecem quase táteis: Agnes deitada sob uma árvore, ensinando os filhos a reconhecer plantas pelo cheiro, caminhando no campo como se estivesse em sintonia com o ambiente. Do outro lado, também é delicado observar Will como pai, inventando pequenas encenações teatrais para entreter as crianças.

Tudo segue com essa cadência até que a narrativa chega ao momento inevitável: a morte de Hamnet (Jacobe Jupe), aos 11 anos. A dor — terrível, inimaginável — é filmada com intensidade, acompanhando a entrega emocional de Jessie Buckley, que vai do choro ao soluço em uma sequência devastadora. É o tipo de atuação que naturalmente vai lhe render o Oscar de Melhor Atriz, sendo ela a favorita para esse e já tendo vencido todas as premiações nessa corrida.

Ainda assim, outros filmes recentes que abordaram perdas e dinâmicas familiares me tocaram mais. Penso em Sonhos de Trem (leia aqui), na sequência em que Joel Edgerton descobre a morte da esposa e da filha no incêndio que devastou a vila, ou em Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria (leia aqui), quando Rose Byrne desaba no sofá do terapeuta, exausta e emocionalmente à deriva. Nesses casos, a emoção parecia nascer da própria história.

Em Hamnet, a diferença está justamente aí. A estrutura é tão cuidadosamente moldada para conduzir o espectador à comoção que o impacto acaba se concentrando quase exclusivamente na força das performances. O filme emociona — mas mais pela entrega de seus atores do que por uma narrativa que cresça até esse momento.

A sequência final reforça essa percepção ao colocar em cena o poder da arte como possível forma de elaboração do luto, trazendo trechos de Hamlet encenados no Shakespeare’s Globe. A ideia é interessante: transformar a dor em linguagem, o trauma em arte.

Em determinado momento, Agnes, sentada na plateia, tenta compreender por que o marido esteve ausente por tanto tempo e o que aquela peça realmente tem a ver com o filho que perderam. Assim como ela, também não sabemos exatamente a resposta. Talvez aí esteja a ambiguidade que o filme procura. Ainda assim, fica a sensação de que Hamnet poderia ter amarrado melhor essas camadas, deixando as nuances menos declaradas e mais abertas para o espectador completar.

Hamnet (idem, 2025)

Diretor: Chloe Zhao
Roteiro: Chloe Zhao e Maggie O’ Farrell, baseado no livro de Maggie O’ Farrell
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe Alwyn, Emily Watson, Elliot Baxter e Jacobi Jupe
Duração: 125 minutos
Disponível: Cinemas.

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