“Jovens Mães”, novo filme dos Irmãos Dardenne, vai te deixar desolado

“Jovens Mães”, novo filme dos Irmãos Dardenne, vai te deixar desolado

Os irmãos Dardenne, Jean-Pierre e Luc, desenvolveram ao longo dos anos uma filmografia marcada por uma crítica social constante — muitas vezes comparada ao trabalho do britânico Ken Loach. Para além disso, seu cinema é reconhecido por uma estética própria: câmera na mão, olhar observacional, trabalho frequente com atores não profissionais e as ruas como cenários e pano de fundo.

É com esse mesmo olhar que, em Jovens Mães, os Dardenne acompanham a trajetória de cinco jovens e vulneráveis mulheres — mães ou prestes a se tornarem uma — em suas lutas diárias para equilibrar as próprias ansiedades com a exigência de oferecer amor, cuidado e afeto a uma nova vida, mesmo quando mal conseguem cuidar de si mesmas. Todas vivem em uma espécie de berçário em Liège, na Bélgica. E, embora estejam em diferentes estágios da maternidade, todas se encontram diante de alguma encruzilhada.

Jessica (Babette Verbeek) está nas últimas semanas de gestação e tenta ressignificar o abandono da própria mãe como uma forma de se conectar com o bebê que está para nascer. Já Perla (Lucie Laruelle), mãe de Noé, vive a expectativa da saída do namorado da prisão, apenas para ser abandonada por ele e se ver obrigada a encarar a realidade da maternidade solo.

O filme também acompanha Julie (Elsa Houben), que luta para abandonar o vício em drogas enquanto tenta, finalmente, construir uma vida a dois com o namorado Dylan (Jef Jacobs). Ex-morador de rua, ele compartilha com Julie o medo constante da recaída. Por fim, há Ariane (Janaina Halloy Fokan), que convive com uma mãe alcoólatra e abusiva enquanto pondera se deve ou não entregar sua filha para adoção.

Enquanto as lentes dos irmãos Dardenne capturam essas rotinas — o aprendizado de um simples banho, a tentativa de fazer o bebê arrotar após a mamadeira —, os homens surgem como figuras praticamente ausentes da narrativa, com raras exceções. E pouco importa se essa história se passa na Bélgica ou no Brasil: os desafios, as lutas e os problemas sociais apresentados são universais.

Dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) indicam que, entre janeiro de 2016 e abril de 2025, 5,57% de todos os nascimentos no país foram de crianças registradas apenas com o nome da mãe — um percentual que representa mais de um milhão de bebês. Esse abandono carrega implicações sociais e psicológicas profundas, que encontram eco direto nas histórias narradas em Jovens Mães.

É justamente por isso que o olhar sensível e empático dos irmãos Dardenne vai apertando o estômago do espectador à medida que acompanhamos os conflitos cotidianos dessas personagens. A sensação remete àquela provocada por O Filho (2002) ou A Criança (2005), filmes que me apresentaram ao cinema da dupla e que permanecem vivos na memória até hoje.

Há, no entanto, um aspecto particularmente relevante em Jovens Mães que merece ser sublinhado: a importância de espaços de acolhimento como o retratado no filme — algo distante da realidade de muitos países. Assim, em vez de julgar essas mulheres, como facilmente poderia acontecer nas mãos de outros diretores, a crítica social dos Dardenne se estende também à necessidade de políticas públicas e programas de assistência capazes de amparar mães em situações de extrema vulnerabilidade.

Mantendo uma narrativa simples e natural, sem apelos melodramáticos e sem o uso de trilha sonora, Jovens Mães reafirma a forma e a marca registrada dos irmãos Dardenne. O tom de resiliência e esperança também se faz presente, porque, no fim, resta a confiança de que esses momentos difíceis — ainda que tão dolorosos que parecem não ter fim — passam eventualmente.

Jovens mãEs (Jeunes mères, 2025)

Diretores: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Roteiro: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Elenco: Babette Verbeek, Lucie Laruelle, Elsa Houben, Jef Jacobs e Janaina Halloy Fokan.
Duração: 105 minutos
Disponível: Cinemas.

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