Para alguém formado em jornalismo como eu, há um certo fascínio em olhar, à distância, para a New Yorker. No Brasil, o mais próximo que é possível chegar dela é com a nossa Revista Piauí. Ambas têm em comum o apreço por reportagens que são quase mini documentários: trazem aprofundamento sobre o que outros veículos cobrem apenas na superfície e, por último — e tão importante quanto tudo isso —, esmiúçam com enorme riqueza de detalhes e, às vezes, bom humor, temas que parecem complexos demais.
Para uma delas, neste caso a New Yorker, completar 100 anos é um marco impossível de deixar passar em branco. Nestes tempos digitais em que vivemos, é uma vitória ter publicações como a New Yorker — ou a Piauí — ainda existindo. E é sobre isso que trata o documentário The New Yorker: 100 Anos de História, disponível no catálogo da Netflix, que narra como a publicação se transformou em parte da cultura de Nova York e, hoje, além de continuar sendo vista dessa maneira, também oferece uma janela para entender questões existenciais e complexas do mundo.
O editor atual da New Yorker, David Remnick, dá um depoimento logo no início do documentário ao afirmar, sem sequer piscar os olhos, que a revista continuará existindo daqui a 200 ou 300 anos. Mesmo eu sendo uma pessoa pessimista por natureza, concordo com ele. A New Yorker tem um formato editorial tão forte e uma base tão bem fincada — com direito a manuais de redação, como existiam aqui na Folha de S.Paulo (é possível que ainda existam; estudei muito aquele livro nos meus tempos de faculdade) — que consigo visualizar a revista existindo mesmo quando eu não estiver mais aqui para testeminhar.
E isso o documentário narra bem: mostra como os repórteres são obsessivos pelas histórias que contam, como as capas são cuidadosamente criadas para refletirem o humor de um tempo específico e como, ainda que estas sejam as partes menos interessantes da narrativa, artistas e personalidades se relacionam com a revista.
Mas The New Yorker: 100 Anos de História não fala apenas do reconhecimento que a publicação conseguiu alcançar, sendo um sucesso em meio a um oceano devastado pelo fechamento de outras revistas importantes após a chegada do digital. Acusada constantemente de “elitista”, o documentário aborda a questão e traz um depoimento fulminante da escritora Chimamanda Ngozi Adichie, quando ela afirma que “se elitismo é discutir com profundidade, então precisamos de mais disso”.
Ela comenta sobre o anti-intelectualismo, certamente por parte das mesmas pessoas que propagam e defendem a proibição de certos livros em bibliotecas públicas ou que espalham mentiras com o intuito de rachar a sociedade. Não poder escrever sobre arte, política ou ciência de uma forma que faça as pessoas pensarem — e acusar isso de elitismo — é um conceito extremamente perigoso. E isso só reforça a sensação de fundo do poço em que nos encontramos.
Interessante perceber que nesse ponto da história, criei uma certa expectativa pelo documentário elaborar mais. Mas ficou só na passagem mesmo. Por sinal esse é um problema de The New Yorker: 100 Anos de História, que é justamente passar muito brevemente pela rotina e perfil de repórteres importantes que escrever artigos, investigativos ou não, sobre os mais diversos e importantes assuntos. Ao fazer exatamente o oposto do que a revista faz, o filme deixa um leve sentimento de decepção.
À parte toda a história contada, que remonta às fases dos seis editores que a revista teve e ao culto que ela conseguiu estabelecer, é importante mencionar que The New Yorker: 100 Anos de História não é um documentário apenas para jornalistas ou interessados em um certo tipo de artigo. Ao final, a sensação é mais ampla: trata-se de um filme para todo público interessado em estar bem informado e em se educar sobre aquilo que ainda não sabe.
New Yorker: 100 anos de história (The New Yorker at 100, 2025)
Diretor: Marshall Curry
Roteiro: N/A
Elenco: David Remnick, Françoise Mauly, Nick Paumgarten, Molly Ringwald, Sarah Jessica Parker e Jesse Eisenberg
Duração: 96 minutos
Disponível: Netflix

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