O diretor sul-coreano Hong Sang-soo deve ser um dos cineastas mais ativos da indústria. É comum termos ao menos dois lançamentos por ano. E há uma certa expectativa sobre o que esperar ao assistir a um filme seu: obras que parecem amadoras, extremamente naturalistas e econômicas em qualquer movimento de câmera. Esses elementos estão presentes em O Que a Natureza Te Conta e o diretor entrega, além do que se espera de sua estética, nuances que também caracterizam a sua forma de contar histórias.
Neste novo filme, dividido em oito capítulos, Sang-soo abre a narrativa com uma mulher de meia-idade terminando de lavar os pratos na cozinha e corta bruscamente para Park (Park Mi-so) e Yunhee (Cho Yun-hee), sentados dentro de um carro à beira de uma estrada. Nada se sabe sobre eles, apenas que Park deu carona a Yunhee de Seul até uma região metropolitana afastada, que exige algum tempo de viagem. Ao estacionar para deixá-la, Park fica vislumbrado com a casa, construída praticamente montanha acima. Com o diálogo se desenvolvendo, entendemos que os dois são namorados e que, diante do deslumbre de Park, Yunhee o convida para conhecer a casa.
Assim, O Que a Natureza Te Conta passa a ser um filme sobre “aquela primeira vez em que conhecemos os pais da namorada”. Cada pessoa tem uma história para contar sobre isso, pontuada por momentos embaraçosos, silêncios constrangedores e pelo pai — ou pela mãe, ou por ambos — tentando compreender quais são as verdadeiras intenções em relação à filha.
O filme de Sang-soo é justamente sobre isso, e não demora muito para os constrangimentos começarem. Logo quando sobem pela garagem com o carro, o pai de Yunhee, Kim (Kwon Hae-hyo), aparece. Mais uma vez, com a câmera observando a uma distância média o desenrolar da conversa, o pai, encantado com o carro antigo de Park, cava um pedido para entrar e dar uma volta. É curioso notar como o humor de Park muda, pois, mesmo não querendo emprestar o carro, ele se vê numa posição em que não pode simplesmente dizer “não” ao pai da namorada que tenta impressionar.
Como é de se esperar nos filmes do cineasta, há uma maneira orgânica de deixar a narrativa fluir, quase como se permitisse que os atores improvisassem livremente suas falas. Isso porque o diretor não parece preso à história que conta, ainda que exista uma ideia vaga por trás. Dessa forma, O Que a Natureza Te Conta esconde durante boa parte do filme sua verdadeira trama que, reservada para os capítulos finais, explora inicialmente a dinâmica de adentrar o desconhecido enquanto todos tentam entender o perfil uns dos outros.
Grande parte das longas sequências de conversa no filme é regada a álcool e cigarros. Com isso, Park vai ficando mais soltinho enquanto é bombardeado de perguntas pelo pai, pela mãe e também pela irmã mais nova, que está passando uma temporada na casa dos pais enquanto decide o que fazer da vida. Com tanta bebida e comida, era inevitável que, em algum momento, esse encontro saísse do controle — e é aí que O Que a Natureza Te Conta se torna ainda mais interessante de assistir. É o momento em que os personagens saem de uma jaula simbólica e dizem o que estava guardado e precisava ser dito, após passarem por toda aquela experiência cuja dinâmica parecia pequenos testes de conhecimento sobre o outro.
Mesmo com esse título enigmático, O Que a Natureza Te Conta não desloca seus personagens do ambiente em que estão inseridos. Sang-soo não desfoca o fundo do quadro para priorizar os atores e seus diálogos. Todos os elementos permanecem em cena, ainda que o foco esteja na resolução habitual com a qual o diretor trabalha em seus filmes.
O Que a Natureza Te Conta é um típico filme reflexivo de Sang-soo, que termina com uma sequência ao mesmo tempo estranha e irônica. A despedida no dia seguinte entre Yunhee e Park é constrangedora: ele a abraça e repete compulsivamente “eu te amo”, como se tentasse se redimir da noite anterior, quando, bêbado, disse algumas grosserias. E há ainda a ironia final: durante todo o filme, ele afirma que o carro é confiável, mas, logo no caminho de volta, o veículo quebra e o obriga a parar no acostamento.
Tanto a sequência inicial quanto a final revelam a ambiguidade com que Sang-soo conduz sua narrativa. Se, na abertura, mal sabíamos que eles eram namorados — descobrindo isso apenas aos poucos, nos diálogos —, no fim também ficamos em dúvida sobre a permanência do relacionamento. Talvez apenas um deles saiba qual será esse futuro.
O Que A Natureza Te Conta (Geu jayeoni nege mworago hani, 2025)
Diretor: Hong Sang-soo
Roteiro: Hong Sang-soo
Elenco: Ha Seong-guk, Kwon Hae-hyo e Cho Yun-hee
Duração: 108 minutos
Disponível: Cinemas.

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