Uma das primeiras coisas que a diretora Mary Bronstein, que também assina o roteiro, faz em Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria é exibir alguns close-ups que deixam claro que todos os personagens estão com as pernas no lugar. Ninguém sofre de qualquer problema físico desse tipo.
O título, portanto, funciona como metáfora para acompanhar a trajetória de Linda (Rose Byrne), uma mãe à beira do esgotamento mental enquanto lida com a doença misteriosa da filha — cuja voz escutamos, mas cujo rosto nunca vemos até o fim da projeção. A menina não quer comer e precisa ser alimentada por uma sonda, enquanto Linda tenta equilibrar o trabalho como terapeuta, os cuidados constantes que a filha exige e, como se não bastasse, um buraco recente no teto do apartamento que obriga as duas a morarem provisoriamente em um hotel barato.
Exausta por ter de administrar tantas frentes ao mesmo tempo, Linda encontra algum respiro durante a noite, bebendo vinho e fumando cigarros enquanto cruza com figuras curiosas nesse hotel, como a recepcionista e James (A$AP Rocky). À medida que o filme avança, porém, somos levados a compreender com mais profundidade a fadiga, a ansiedade e o limite emocional estampados em seu rosto — seja quando Bronstein enquadra de perto a expressão cansada da personagem, seja quando Linda se joga no sofá do próprio terapeuta (Conan O’Brien) para relatar experiências que, aparentemente, não são levadas a sério por ele.
O que o filme passa a evidenciar, assim como em outros títulos recentes (Die My Love), é a completa ausência da figura paterna. Aqui, o marido de Linda (Christian Slater) integra a Marinha e vive viajando. Suas únicas interações com a esposa acontecem por telefone e são quase sempre atravessadas por críticas, como se Linda não estivesse fazendo o suficiente nem para lidar com a doença da filha, nem para resolver os problemas do apartamento. Outra presença masculina marcante é a do terapeuta de Linda, que demonstra pouca empatia por ela — sem contar o senhor responsável pelo estacionamento do centro de tratamento da criança, que a pressiona constantemente para retirar o carro, sempre sem paciência.
Mesmo assim, Linda segue atendendo seus próprios pacientes, ouvindo suas dores e tentando encontrar respostas ou caminhos para ajudá-los. Esse acúmulo a leva a um estado cada vez mais profundo de exaustão e desorientação, a ponto de, em determinado momento, implorar por ajuda — sem sucesso. Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria passa, então, a mostrar uma Linda cada vez mais sozinha, lutando internamente com frustrações, raiva e os desafios cotidianos da maternidade. Bronstein conta com uma atuação impecável de Rose Byrne para tornar essa experiência tão crua quanto humana, nos colocando ao lado da personagem mesmo quando ela toma decisões que podem ser criticadas — ou julgadas — como equivocadas.
É nesse ponto que o título do filme ganha novas camadas. Ele pode comportar diferentes interpretações — e talvez não exista uma resposta definitiva. A minha leitura, no entanto, passa justamente pela negação da violência literal. Apesar de atravessar uma sucessão de pressões, frustrações e limites, Linda não explode contra o outro. Ela se irrita, perde a paciência aqui e ali, mas nunca no sentido de partir para a agressão física ou descarregar sua dor de forma violenta.
Esse tipo de reação — o surto explosivo, a violência direta — costuma ser socialmente mais associado aos homens, algo que eu mesmo reconheço como comum. Em Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria, o que vemos é o contrário: uma mulher que absorve tudo, que internaliza o colapso, e cujo esgotamento se manifesta de forma silenciosa, contida e profundamente solitária.
A narrativa construída por Bronstein, aliada a uma fotografia que parece nos sufocar, faz com que sintamos o desespero da personagem e desejemos, sinceramente, que ela consiga ajuda, durma e descanse. No entanto, o estresse só aumenta. Por isso, a experiência de assistir a Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria pode ser profundamente desconfortável — e é exatamente esse o objetivo. Estamos diante do retrato de uma mãe no limite absoluto, algo que, infelizmente, não é difícil de reconhecer no cotidiano.
Não é o tipo de filme que eu assistiria novamente, no sentido de revisitar, como às vezes acontece com outras obras. Mas talvez nem seja necessário: a experiência de vê-lo uma única vez já é suficiente para não esquecê-lo.
Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You, 2025)
Diretor: Mary Bronstein
Roteiro: Mary Bronstein
Elenco: Rose Bryne, Conan O’Brien, A$AP Rocky, Christian Slater, Delaney Quinn e Danielle Macdonald
Duração: 113 minutos
Disponível: Cinemas

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