“Sem Tempo para Morrer” é o filme mais melancólico da franquia 007

Encerrar uma era de sucesso de um dos personagens mais icônicos da história do cinema é uma tarefa difícil, pela qual Daniel Craig sentiu a responsabilidade de retornar mesmo após o cansaço que ele relatou ter sentido em Spectre (2015). Sem Tempo para Morrer, o 25º capítulo de quase 60 anos de 007, teve esse desafio. É sem dúvida o filme mais emocionante e melancólico da franquia, que estreia nos cinemas (onde deve ser visto e seguindo todos os protocolos de saúde, óbvio) após um atraso de quase dois anos por conta da pandemia de COVID-19. É também uma carta de amor do ator ao personagem que ele interpretou nos últimos dezesseis anos.

Sem Tempo para Morrer, que é o filme mais longo da franquia (163 minutos!), pega a história exatamente de onde Spectre deixou. Ao contrário de outros atores que interpretaram James Bond, a Era Daniel Craig é marcada por filmes que seguem uma história serializada. Portanto, Sem Tempo para Morrer é sobre tentar deixar o passado para trás. E isso é impossível sem lembrar dos acontecimentos de Casino Royale (2006), Vesper e a traição que marca Bond para sempre. A sequência que abre Sem Tempo para Morrer, enquanto Bond e Madeleine (Léa Seydoux) tentam seguir em frente e planejam uma vida juntos, é sobre este passado o qual assombra o protagonista e que não foi superado.

Por essa razão, neste quinto filme em que Craig interpreta James, nunca o vimos tão vulnerável, ainda que ele mostre agressividade quando necessário. Com a guarda baixa, Bond se vê numa encruzilhada entre se arriscar ser traído novamente por confiar em uma mulher que ele ama. Ao mesmo tempo, Bond precisa mais uma vez salvar o mundo da visão doentia de um vilão (Safin, Rami Malek) que pretende iniciar uma guerra biológica e cuja personalidade é inspirada em parte no Satânico Dr. No, com ilha e tudo o que tem direito. Porém, sem a força ou expressão que o tornam ameaçador, a maneira como o filme o descarta em determinado momento, quando o final precisa avançar para um desfecho, só reforça isso.

Com um vilão fraco e uma trama de espionagem pouco fundamentada e tão complexa que a torna desinteressante, apesar das belas e bem filmadas perseguições que contribuem para o tom épico do filme, quem segura a narrativa é realmente Daniel Craig na atuação mais brilhante que qualquer ator que tenha interpretado James Bond já tenha entregado. Navegando entre várias emoções, desde confrontar o passado ao passo que tenta enxergar uma vida no futuro, Craig se apresenta mais confortável do que nunca no papel que ele próprio ajudou a definir um novo tom, durante uma fase em que o público (e a indústria) questionavam a relevância do personagem.

Assim, quando os créditos finalmente sobem, Sem Tempo para Morrer deixa uma sensação agridoce. É possível ficar triste ao se despedir do melhor ator que interpretou o agente até o momento. E por outro lado há também uma satisfação: de notar que Daniel Craig transformou o seu James Bond em um símbolo, o qual será difícil de substituir e que o público (escrevo por mim) precisará de tempo até embarcar novamente em uma nova aventura. Por enquanto, apreciamos o adeus de Daniel Craig e o Bond que ele criou.

Vinícius Silva
Jornalista e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. É viciado em filmes e séries, e ama discutir sobre isso. Gosta de escutar podcasts e rever filmes de Martin Scorsese.

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