Unfamiliar, série alemã disponível no catálogo da Netflix, é uma história de espionagem que utiliza praticamente todas as táticas já conhecidas do gênero. Estão ali os elementos clássicos: uma missão antiga que deu errado e cujo passado retorna para atormentar os protagonistas, o casal de agentes da inteligência alemã dado como morto — mas que oficialmente ainda opera sob disfarce — e, como não poderia faltar, o tradicional agente duplo cuja identidade permanece em segredo enquanto a trama se desenvolve.
Mesmo com todos esses clichês, no entanto, Unfamiliar consegue uma façanha importante: ser bem-sucedida na história que conta. A série faz isso demonstrando controle sobre o caminho que deseja seguir e, principalmente, apoiando-se na dupla de protagonistas. O casal de agentes Simon (Felix Kramer, da série Dark) e Meret (Susanne Wolff, do ótimo O Estranho em Mim) tem carisma suficiente para nos fazer acompanhá-los mesmo quando os segredos começam a emergir — especialmente aqueles ligados à missão na Bielorrússia que deu terrivelmente errado e que funciona como gatilho para o início da narrativa.
Em alguns momentos, a dinâmica entre os dois lembra The Americans, ainda que aqui as tensões do relacionamento não sejam o principal foco da série. Unfamiliar tem outra prioridade: prender a atenção do espectador. E cumpre esse objetivo seguindo a cartilha das produções da Netflix, combinando boas sequências de ação — já que os dois precisam sobreviver enquanto tentam proteger a vida que construíram com a filha de 16 anos — com uma sucessão de cliffhangers ao final de cada episódio, que despertam aquela vontade imediata de continuar assistindo.
Isso não se torna um problema porque a série consegue equilibrar bem essa narrativa ágil com uma trama que busca ser mais elaborada. Esse equilíbrio aparece sobretudo nas conspirações que vão se formando ao longo da história, especialmente em torno da identidade da agente dupla. Embora a revelação possa parecer relativamente previsível, Unfamiliar consegue manter o suspense ao controlar as expectativas e plantar suspeitas suficientes para deixar até os espectadores mais atentos em dúvida.
Ao longo de seus seis episódios, Unfamiliar mostra que utilizou o manual do gênero com eficiência e precisão. A série equilibra o entretenimento — algo esperado nesse tipo de história — com um retrato mais complexo da vida de espiões, que em determinado momento passam a questionar qual realidade, ou qual vida, estão de fato vivendo. Há momentos de tensão genuína ao longo da narrativa, e esse é um dos fatores que tornam Unfamiliar, mesmo com todos os clichês que carrega, uma jornada envolvente para quem assiste.

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