“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” expõe a reação humana ao desconhecido

“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” expõe a reação humana ao desconhecido

À medida que revisitava Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) para adicioná-lo ao grupo seleto de Grandes Clássicos do sob a minha lente, não conseguia parar de imaginar a reação do público ao assistir a esse filme em 1977, em uma sala de cinema lotada. Será que gritaram? Será que se esconderam com medo? Ou se deixaram levar pelo encantamento? Talvez tenham sentido um pouco de tudo, porque é exatamente isso que Steven Spielberg alcança nesse filme, lançado logo após o estrondoso sucesso de Tubarão (1975).

Fiquei me fazendo essas perguntas porque, para um filme de 1977, Contatos Imediatos do Terceiro Grau antecipa um debate que segue atual: como reagiríamos diante da visita de seres de outro planeta? Para alguns, esse possível encontro desperta curiosidade — quase como um grande evento de sexta à noite, ambientado no filme com as pessoas se reunindo enquanto jogam cartas e aguardam a próxima aparição de naves iluminadas no céu.

Por outro lado, esse mesmo cenário também provoca paranoia. Spielberg apresenta os dois caminhos, mas é nesse segundo que sua narrativa se concentra ao acompanhar Roy Neary (Richard Dreyfuss), um homem comum, casado e pai de três filhos, que é chamado para investigar um apagão massivo na região. No caminho, ele tem um encontro imediato com uma dessas naves — e essa experiência muda completamente sua percepção da realidade. O mesmo acontece com Jillian (Melinda Dillon), mãe solteira de Barry, que, após sucessivos encontros, vê o filho ser abduzido.

A partir daí, a paranoia passa a dominar tanto Roy quanto Jillian. Ele perde gradualmente o senso de realidade, tentando reproduzir obsessivamente a formação montanhosa que vê em suas visões. Jillian, por sua vez, faz o mesmo, desenhando a imagem repetidas vezes em papéis. A vida de ambos vira de cabeça para baixo — especialmente a de Roy. Já em um casamento fragilizado, o encontro com os extraterrestres se torna a gota d’água para o colapso familiar, intensificado pelo olhar desconfiado dos filhos, que passam a se envergonhar do comportamento errático do pai.

Em paralelo, Spielberg explora o outro lado da equação: a curiosidade científica. Isso se dá por meio do pesquisador francês Claude Lacombe (François Truffaut), que investiga fenômenos semelhantes ao redor do mundo, buscando formas de comunicação com esses seres por meio de notas musicais. Eventualmente, suas pesquisas levam à descoberta de coordenadas que conduzem toda a equipe — e a própria narrativa — ao estado de Wyoming.

Quando o filme chega ao terceiro ato, Spielberg ainda guarda uma última camada antes de se entregar ao sentimentalismo e à positividade que marcam parte de sua filmografia. Enquanto Lacombe e sua equipe trabalham no local, acompanhamos Roy e Jillian em deslocamento para o mesmo destino. Paralelamente, o exército americano passa a divulgar informações falsas, alegando a existência de um gás tóxico na região — uma tentativa de impedir a presença de civis no local.

É assim que Spielberg introduz a dimensão das teorias da conspiração, talvez uma das mais persistentes até hoje quando se fala em vida extraterrestre. São essas narrativas que alimentam a curiosidade — ainda que muitas vezes tratada como nichada — sobre a existência de OVNIs. Mas, para além disso, Contatos Imediatos do Terceiro Grau reserva seu momento final para algo mais essencial: a crença de Spielberg de que esse encontro, caso aconteça, poderia representar uma forma de aprendizado ou até de redenção para a humanidade.

Mesmo sem respostas concretas — afinal, é impossível prever como reagiríamos a uma situação dessa magnitude —, Spielberg opta por uma mensagem de esperança. Ao imaginar esse encontro, ele sugere que a reação ideal seria pautada pela empatia e pela gentileza. Uma ideia que ultrapassa a ficção científica e ecoa em qualquer tipo de relação humana, especialmente em tempos de tensão e incerteza como a que estamos vivendo em 2026.

Revisto agora pela terceira vez (uma coincidência curiosa), Contatos Imediatos do Terceiro Grau continua se apresentando, para mim, não necessariamente como um dos melhores filmes de Spielberg, mas como uma obra que mantém relevância e ressonância no mundo atual. Ao contrário de tratar o contato extraterrestre como um conflito a ser combatido, Spielberg propõe uma visão diferente: a de um encontro capaz de transformar profundamente aqueles que o vivenciam.

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