As mudanças anunciadas recentemente pela Academia não parecem apenas uma atualização de regras. Elas revelam algo maior: um Oscar que tenta se adaptar constantemente a uma indústria que mudou mais rápido do que sua própria estrutura. Em um cinema cada vez mais internacional, fragmentado e moldado pelo streaming, a principal premiação de Hollywood parece viver em estado permanente de reinvenção.
Há uma explicação clara para isso. Nos últimos anos, a Academia passou por um processo de internacionalização, incorporando artistas e representantes de diferentes países ao seu corpo de votantes. Isso ampliou não apenas a diversidade da premiação, mas também a própria percepção sobre o que o Oscar representa hoje.
O streaming teve um papel decisivo nessa transformação. Plataformas globais permitiram que filmes antes restritos ao circuito local alcançassem audiências massivas em escala mundial. Com isso, produções internacionais deixaram de ocupar apenas espaços periféricos da premiação e passaram a disputar categorias centrais — e, em alguns casos, dominar completamente a conversa.
Para acompanhar esse novo cenário — acelerado ainda mais pelo avanço da inteligência artificial — a Academia anunciou mais uma série de mudanças. A mais chamativa delas permite que atores recebam duas indicações na mesma categoria, algo que antes era limitado pelas regras internas da votação.
Ao mesmo tempo, o Oscar endureceu suas diretrizes relacionadas ao uso de IA. A exigência agora é de que performances sejam realizadas por atores humanos com consentimento, enquanto roteiros precisarão ser efetivamente escritos por humanos. A medida surge em meio às discussões crescentes sobre recriações digitais e uso póstumo de artistas, como aconteceu recentemente com Val Kilmer em As Deep as the Grave. Talvez “póstuma” nem seja a palavra mais adequada: o ator foi, de certa forma, ressuscitado digitalmente para participar do filme.
As mudanças também atingem a categoria de Filme Internacional, uma das que mais cresceram em relevância nos últimos anos. Filmes agora poderão se qualificar ao vencer festivais como Cannes, Berlim, Veneza, Sundance e Toronto. Além disso, um mesmo país poderá ter mais de um filme indicado, enquanto o prêmio deixará de ser oficialmente atribuído à nação de origem e passará a reconhecer diretamente o diretor da obra — movimento que reforça uma lógica cada vez mais voltada aos autores, e não apenas aos países que representam.
A Academia também anunciou ajustes menores em categorias técnicas, incluindo a ampliação do número de profissionais elegíveis em Casting e a criação de uma shortlist fixa de 20 filmes para Fotografia.
Mas talvez a mudança mais simbólica tenha sido confirmada para 2029. Depois de décadas na TV aberta americana, o Oscar deixará a ABC e passará a ser transmitido pelo YouTube. A cerimônia também sairá do tradicional Dolby Theatre e seguirá para o Peacock Theater, em Los Angeles.
No fim, todas essas mudanças parecem apontar para a mesma direção: o Oscar tenta acompanhar um cinema que já não possui mais um único centro cultural. Durante décadas, a premiação ajudou a organizar a indústria e a conversa em torno dela. Hoje, porém, o cinema é mais disperso, internacional e fragmentado — e talvez o maior desafio da Academia seja justamente encontrar seu lugar dentro dessa nova configuração.

Leave a Reply