Depois de anos diluída entre franquias e produções menores, a ficção científica volta a ser tratada como evento — combinando escala, ambição estética e reflexão. Muito disso passa pelo lançamento de Devoradores de Estrelas, filme protagonizado por Ryan Gosling e dirigido pela dupla Phil Lord e Chris Miller, responsáveis por Homem-Aranha no Aranhaverso. Talvez não por acaso, eles podem estar novamente à frente de uma repaginação — desta vez, de recuperar o prestígio de um gênero.
A bem da verdade, o sci-fi nunca deixou de existir. De 2010 até aqui, vimos títulos relevantes como A Chegada e Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve; A Origem e Interestelar, de Christopher Nolan; Gravidade, de Alfonso Cuarón; e Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller. A lista poderia seguir — e certamente deixaria bons filmes de fora —, mas serve aqui como referência.
O ponto é outro: a ficção científica continuou presente, mas deixou de ocupar o centro da conversa.
O cenário começa a mudar quando olhamos para o momento atual. Entre 2025 e 2026, o gênero volta a ganhar tração — tanto em visibilidade quanto em relevância. Devoradores de Estrelas concentra boa parte dessa atenção nesse início de 2026, impulsionado por sua performance comercial e pelo interesse crítico. Mas ele não está sozinho. O ano ainda reserva Dia D, novo sci-fi de Steven Spielberg, e a conclusão da trilogia Duna, de Villeneuve — dois projetos que reforçam essa retomada em diferentes frentes: espetáculo e prestígio.
Essa força não se limita ao cinema. No streaming, a ficção científica também encontrou um espaço fértil. Séries como Severance, Alien: Earth, Andor e Pluribus mostram como o gênero continua sendo um instrumento privilegiado para refletir sobre ansiedades contemporâneas — trabalho, memória, identidade, tecnologia e formas de conexão. Mais do que antecipar o futuro, essas narrativas ajudam a organizar e refletir o presente.
Entre o espetáculo e a ideia
Essa sempre foi uma das tensões centrais do sci-fi. Em alguns momentos, ele se aproxima de experiências humanas reconhecíveis; em outros, aposta em construções tão distantes que parecem inalcançáveis. Ainda assim, há uma constante: a capacidade de traduzir dilemas complexos — científicos, tecnológicos ou sociais — em narrativas acessíveis. O gênero funciona como um espaço onde ideias abstratas ganham forma.
Parte desse novo momento também passa por uma mudança no próprio mercado. Após anos dominados por blockbusters baseados em super-heróis, sequências e refilmagens, a indústria começa a sentir os efeitos da saturação. Em 2025, esse espaço foi ocupado pelo horror — com títulos como Pecadores e A Hora do Mal conquistando público e reconhecimento crítico. Em 2026, o movimento parece se repetir, mas agora com a ficção científica.
Isso não significa o fim das franquias. Pelo contrário: títulos como The Super Mario Galaxy Movie, Toy Story 5, Avengers: Doomsday e Duna: Parte 3 seguem como pilares comerciais. Mas há um entendimento crescente de que isso, sozinho, já não sustenta o interesse do público. Com a atenção cada vez mais fragmentada — especialmente pelo streaming —, o risco volta a ser necessário.
Há ainda um fator mais amplo que ajuda a explicar esse movimento: o contexto em que vivemos. Em um mundo cada vez mais fragmentado e polarizado, a ficção científica oferece um território comum — onde ideias difíceis podem ser exploradas de forma indireta, simbólica e, muitas vezes, mais acessível.
Como escreveu Mary Kang, no artigo Longing for Tomorrow, publicado em 2017 na extinta revista Real Life:
“Em momentos de instabilidade — quando a realidade parece cada vez mais difícil de interpretar — a ficção científica volta a ganhar força como ferramenta de leitura do presente. Não por antecipar o futuro com precisão, mas por reorganizar, em forma de narrativa, as tensões do agora.”
De alguma forma, é isso que se desenha a partir da nova leva de produções previstas para 2026. Se antes o sci-fi era frequentemente associado a ideias distantes ou abstratas, hoje ele se reposiciona como um espaço mais direto de interpretação do mundo contemporâneo — um lugar onde o futuro deixa de ser apenas projeção e passa a ser ferramenta de análise.
Talvez seja por isso que o gênero esteja em evidência nesse momento. Porque, no fim, a ficção científica nunca foi apenas sobre o que vem pela frente — mas sobre como entendemos o presente (ou até a nós mesmos).

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