Existe um misto de alívio e decepção ao chegar ao final de Peaky Blinders: O Homem Imortal. Apesar de pensado para o cinema, o filme se aproxima mais de um episódio da série — e sem o tempo necessário para aprofundar seus conflitos e determinadas tramas. Essa é a parte decepcionante. Ainda assim, é possível sair com uma sensação de alívio diante do desfecho, enquanto a frase “peace at last”, dita por Tommy no final da série, reverbera aqui como algo que finalmente se concretiza.
A trama se passa seis anos após os eventos do final exibido pela Netflix. Nesse intervalo, a Lei Seca foi revogada nos Estados Unidos, enquanto o Partido Nazista avançava na Alemanha. Já em novembro de 1940, a Inglaterra vive um de seus momentos mais decisivos na guerra, especialmente após um ataque aéreo nazista atingir uma fábrica de munição em Birmingham e deixar mais de 100 mortos.
É esse o ponto de partida para o reencontro com Tommy Shelby, agora vivendo isolado no interior, dedicado à escrita de suas memórias e aparentemente distante do gângster que um dia foi. Mas esse passado retorna quando sua irmã, Ada (Sophie Rundle), o procura para avisar que seu filho mais velho, Duke (Barry Keoghan), refundou os Peaky Blinders e voltou a causar problemas em Birmingham — a um ponto em que a intervenção de Tommy se torna inevitável.
Em paralelo, o filme introduz uma trama de conspiração envolvendo o envio de dinheiro falso pelos nazistas para a Inglaterra, em uma tentativa de desestabilizar a economia e obter vantagem na guerra. É uma linha narrativa que remete diretamente ao que a série costumava fazer, inclusive com a presença de um antagonista claro, Beckett (Tim Roth).
No entanto, essa trama pouco se sustenta. O roteiro de Steven Knight, criador da série, não consegue transformá-la na ameaça que pretende ser. O que realmente carrega peso dramático — e que poderia ter sido mais explorado — é o desequilíbrio de Tommy, marcado por visões e paranoias que ganham outra dimensão com a presença da cigana Kaulo (Rebecca Ferguson), irmã gêmea de Zelda.
Tommy, que talvez preferisse permanecer isolado e dedicado ao seu livro enquanto tenta lidar com seus próprios conflitos, é forçado a retornar à liderança quando Duke passa a agir de forma impulsiva e irresponsável. Ainda que exista uma aura nostálgica nesse retorno, o filme entrega apenas uma sequência de ação mais significativa — que, assim como o restante da narrativa, acontece rápido demais.
Mesmo com esse ritmo apressado, O Homem Imortal apresenta bons momentos, como a cena que antecipa o confronto entre Ada e Duke, ou o primeiro encontro entre Tommy e Beckett. Esses momentos são potencializados por uma trilha sonora marcante, com artistas como Fontaines D.C., Nick Cave e Girl in the Year Above.
Apesar de oferecer um desfecho definitivo, Peaky Blinders: O Homem Imortal o faz sem a carga emocional que se esperava. A pressa da narrativa compromete a profundidade que sempre foi uma das marcas da série. Ainda assim, Cillian Murphy, após mais de uma década interpretando Tommy Shelby, consegue acessar nuances que continuam tornando o personagem complexo e fascinante de acompanhar.

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