Uma das coisas que mais me atraem nos filmes de Jane Schoenbrun é o fascínio por um momento específico da história — as décadas de 1980 e 1990 —, cuja cultura moldou boa parte do meu “eu” mais jovem. Aquele senso de refúgio nas fitas VHS, nas locadoras e em histórias sobre mundos imaginários capazes de me levar para qualquer lugar. Estava lá em I Saw the TV Glow e volta agora ao centro de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte.
Logo nos créditos iniciais, Schoenbrun brinca com essa memória afetiva ao recriar o universo de uma franquia fictícia de slasher — capas de fita, anúncios de jornal, brinquedos, itens de colecionador, toda a parafernália que Hollywood produz quando descobre uma nova mina de ouro. Funciona como homenagem, claro, mas também como sátira de como a indústria realmente opera. Depois de uma dúzia de filmes requentando a mesma trama, a franquia deixa de dar lucro e é jogada no limbo, junto com seus atores, diretores e o resto da equipe criativa.
Quando o estúdio decide que talvez seja hora de um reboot, entra em cena Kris (Hannah Einbinder, de Hacks), jovem cineasta que chamou atenção em Sundance — paralelo direto com a trajetória de Schoenbrun, que também despontou no festival. Kris cresceu assistindo ao filme original repetidas vezes, muito antes de pensar em trabalhar na indústria, e a franquia ajudou a moldar quem ela é.
Com o sinal verde para trazer de volta o assassino conhecido como Little Death, ela recebe a missão de resgatar o gênero. Só que nem ela sabe direito como fazer isso. Por isso, parte para o antigo set de filmagens do Camp Miasma, onde hoje vive reclusa Billy Presley (Gillian Anderson), a estrela do primeiro filme. A partir daí, Acampamento Miasma mergulha na metalinguagem — um filme dentro de outro filme — para mostrar o quanto a cultura pop é capaz de transformar quem a consome. Os personagens e, por extensão, nós mesmos.
Há ainda uma camada que atravessa tudo isso. Little Death é o fantasma de uma criança criada ao mesmo tempo como menino e menina, afogada por colegas de acampamento — e Kris sabe que foi contratada justamente para tornar essa premissa transfóbica mais palatável ao público de hoje. Não surpreende que o filme tenha saído de Cannes com a Palma Queer.
Para dar conta de tantas camadas, Schoenbrun transita por diferentes gêneros e introduz metáforas com uma dose de surrealismo que lembra David Lynch. Ao mesmo tempo, presta homenagem a clássicos como Sexta-Feira 13, Halloween: A Noite do Terror e Crepúsculo dos Deuses — impossível não pensar em Norma Desmond diante de Billy, isolada no cenário do próprio passado.
Na mira do slasher
Há uma passagem em que Jamie Lee Curtis, que voltou a viver Laurie Strode perto dos 60 anos no Halloween de 2018, é lembrada para rebater um executivo convicto de que o público não quer mais protagonistas mulheres acima dessa idade. É um momento rápido, mas que resume bem o olhar crítico que atravessa o filme inteiro.
Porque, se Acampamento Miasma traz a violência gratuita típica do gênero, também não deixa de comentá-la. Está lá a garota seminua correndo pela floresta numa regata apertada, está lá a virgindade tratada como troféu a ser conquistado. Schoenbrun deixa evidente como a mulher, nesses filmes, existe sobretudo como objeto de desejo. E, por isso, o que move o assassino não é exatamente a vontade de matar, mas a de perseguir e alcançar.
Há também muito humor, com o filme funcionando como sátira afiada da Hollywood contemporânea — a reunião por Zoom entre Kris e os executivos é um dos melhores momentos. Em alguns trechos, a história sofre com o excesso de ideias e ângulos que tenta abraçar. Mas quem espera um terror de sustos fáceis vai encontrar outra coisa. Acampamento Miasma se interessa mais pelas descobertas sobre desejo e identidade, que casam muito bem com o tom de fantasia que o filme assume sempre que se descola da realidade.
Homenagens e nostalgia
No fim, não vejo Acampamento Miasma como uma homenagem ao slasher. A crítica Alissa Wilkinson, do New York Times, acertou ao observar que o filme celebra menos o gênero e mais a experiência de amá-lo. E essa experiência é bem conhecida de quem cresceu entre fitas e prateleiras de locadora. Muita coisa que nos formou envelheceu mal, carrega ideias que hoje recusamos e, ainda assim, continua sendo nossa. O filme não pede que a gente escolha entre o afeto e a crítica. Pede que a gente sustente os dois.
Não por acaso, o vilão se chama Little Death, tradução literal de la petite mort, expressão francesa para o orgasmo. Sexo e morte sempre andaram juntos no terror adolescente, e Schoenbrun não finge o contrário. Prefere olhar para essa mistura sem culpa nem cinismo — com o carinho de quem sabe que dá para amar uma coisa e enxergar, ao mesmo tempo, tudo o que há de errado nela.


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