Já ouvi muito, na cobertura jornalística — especialmente em época de eleições —, que Brasília não é para qualquer um, ou que a cidade não tem esquinas e, por isso, os acordos políticos acontecem nos bastidores dos palácios. São jargões que sobrevivem ao tempo e ajudam a compreender o que se passa em Doces Poderes, filme escrito e dirigido por Lúcia Murat, lançado em 1996 sob duas condições muito claras da época: a Retomada do cinema brasileiro depois da era Collor e a confirmação das políticas do então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), que viria a ser reeleito dois anos depois.
Brasília — e o Brasil — está no centro dos holofotes de Doces Poderes porque é período de eleições. Prestes a assumir a sucursal da principal rede de televisão do país, Beatriz (Marisa Orth), a Bia, chega com o desafio de liderar a cobertura de um processo eleitoral intenso e desgastante. Ela é recebida pelo amigo Bob (Sérgio Mamberti), que pediu demissão do cargo de diretor para assumir a campanha do candidato conservador Ronaldo Cavalcante (José de Abreu). Bob avisa que ela dificilmente sairá dali de mãos limpas. E é bem isso que acontece.
Doces Poderes narra, para além do embate político e do quanto ele pode ficar sujo, a ilusão de que os jornalistas poderiam dar uma cobertura igual e imparcial a todos os candidatos e partidos. Lúcia Murat traz depoimentos de atores interpretando jornalistas “trancafiados” em salas de edição, refletindo sobre o papel que estão desempenhando ali — e sobre a desilusão de quem trocou a redação pela campanha, à medida que os candidatos decepcionam e quebram a confiança que motivou essa escolha.
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A própria Bia chega a Brasília com uma ideia muito clara do que gostaria de fazer, mas logo se vê envolvida em um triângulo amoroso com o deputado Chico Silva (Antônio Fagundes) e seu editor-chefe no telejornal da emissora, Alex (Tuca Andrada). À medida que a trama avança, os aspectos éticos e políticos se misturam a ponto de a própria realidade começar a ser questionada.
Jogo repetitivo
Isso se parece muito com os tempos que vivemos, não é? É que, não importa a época, enquanto houver alguém querendo o poder, ou apenas estar mais perto dele, os caminhos para alcançá-lo tendem a se repetir. Aqui, por exemplo, há o candidato de direita inescrupuloso, disposto a tudo para vencer a eleição, mesmo que seja preciso expor o adversário; e há o da esquerda, um outsider que logo se vê dentro de um jogo mesquinho do qual não conseguirá sair.
Nesse sentido, Lúcia Murat conduz e equilibra o filme com bom humor, mas também com uma coragem que merece aplausos. O Brasil tinha reconquistado a democracia havia pouco mais de uma década, e ela assina um filme honesto sobre como o poder em Brasília corrompe as pessoas, expondo as artimanhas — e o uso irresponsável de dinheiro público — que cada lado usa para suavizar até os candidatos mais perversos.
Das redações ao digital
Sem falar que Doces Poderes soa bastante atual, mesmo três décadas depois do lançamento — talvez até mais hoje do que há alguns anos. A sucursal de TV que Bia comanda já não é o único palco dessa disputa. Ela se estendeu às redes sociais, onde algoritmos decidem o que cada eleitor vai ver e bots e fake news disputam cada clique, o que torna a imparcialidade questionada pelo filme ainda mais difícil de sustentar. Há também uma sequência de uma festa regada a mulheres e bebidas que lembra muito os relatos divulgados pela imprensa sobre o caso do Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Talvez seja por isso que aquele jargão do início — Brasília não é para qualquer um — continue soando tão verdadeiro. A tecnologia mudou, a velocidade da notícia mudou, os palcos se multiplicaram. Mas o jogo permanece o mesmo, e quem entra nele dificilmente sai de mãos limpas, como Bob avisa a Bia logo na chegada. Lúcia Murat entendeu isso em 1996 e filmou com uma clareza que ainda hoje incomoda.


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