Hope: Primeiro Impacto, do sul-coreano Na Hong-jin (O Lamento), causou burburinho antes mesmo de chegar aos cinemas. Não apenas por marcar o retorno do cineasta depois de uma década sem lançar filmes, mas principalmente pelo orçamento, que fez dele o filme mais caro já produzido na Coreia do Sul. Para quem construiu a carreira com produções enxutas, em que a tensão vinha muito mais da sugestão do que do espetáculo, é uma mudança e tanto de escala. A ambição está na tela, inclusive no elenco internacional, com Michael Fassbender e Alicia Vikander ao lado de Hwang Jung-min e Zo In-sung. Mas isso não quer dizer que ela tenha sido bem usada.
O filme dividiu a crítica quando foi exibido na competição de Cannes, e não é difícil entender por quê. A história se passa em Hope Harbor, uma pequena cidade próxima à Zona Desmilitarizada — não por acaso, há placas aqui e ali pedindo cuidado e incentivando a denúncia de possíveis espiões. E, durante exatos quarenta e cinco minutos, o filme se sustenta muito bem. Nesse início, conhecemos o chefe de polícia Bum-seok (Hwang Jung-min), chamado pelo primo, Sung-ki (Zo In-sung), para ver um animal estranho e terrível que ele e seus parceiros de caça encontraram no meio da pista.
Leia também
“Acampamento Miasma” mistura terror, nostalgia e crítica à indústria de Hollywood
O grupo levanta uma série de teorias, mas Bum-seok sai da conversa convencido de que pode se tratar de um tigre e, no caminho de volta, pede pelo rádio que a polícia emita um alerta à população. É nesse retorno que ele começa a encontrar um rastro de destruição e caos — e é justamente aí que Na Hong-jin faz um ótimo trabalho. Ele esconde a criatura, mostra apenas vultos aqui e ali e deixa a tensão crescer em torno do que pode ter provocado tudo aquilo.
Quando a criatura finalmente aparece, Hope pisa no acelerador no estilo Mad Max: Estrada da Fúria e se transforma num filme de perseguição alucinante. A ação alterna entre Bum-seok, que passa a contar com a ajuda da policial Sung-ae (Hoyeon), e o grupo de caçadores liderado pelo primo dele na floresta. As sequências são bem filmadas e coreografadas e, no início, encantam. Mas, ao contrário do filme de George Miller, elas não levam a lugar nenhum. Repetem-se até se tornarem cansativas.
Muito orçamento, pouca história
Filmes como Hope sempre me fazem perguntar por que eles existem. É só para render mais um filme-catástrofe com monstros? Ou para testar a nossa capacidade de enxergar ali algo da realidade em que vivemos? Na Hong-jin não faz nem uma coisa nem outra. A ambição do início dá lugar, na segunda metade, a uma virada de ficção científica que ninguém, nem os próprios personagens, parece entender.
Os personagens não ganham o desenvolvimento necessário para que possamos conhecê-los melhor, e a própria trama carece de explicações que a justifiquem. Com mais de duas horas e meia de duração, Na Hong-jin tinha tempo de sobra para se aprofundar no mundo que ele mesmo construiu.
Também é frustrante que as criaturas não justifiquem o orçamento impressionante do filme. Em 1982, O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, criava monstros muito mais reais e ameaçadores com efeitos práticos. No fim, não sei bem qual é o objetivo de Hope. Como ação alucinada, funciona por um tempo, mas cansa. Como filme-catástrofe, oferece pouca ou nenhuma explicação convincente que nos faça mergulhar na história.
É irônico que o melhor de Hope seja justamente o que menos custou. Nos primeiros quarenta e cinco minutos, quando o monstro ainda não aparece e tudo se resolve com sugestão, sombra e silêncio, Na Hong-jin volta a ser o diretor de O Lamento. Depois, o dinheiro ocupa a tela. O que resta, no fim, são aqueles quarenta e cinco minutos de um bom filme que poderia ter sido.


Deixe um comentário