Quanto mais eu assisto a The Lowdown, série do FX criada por Sterlin Harjo (Reservation Dogs) cuja segunda temporada estreou recentemente no Disney+, mais tenho a sensação de estar lendo a trilogia noir de Ray Bradbury que começa com A Morte É um Negócio Solitário — comentei sobre isso quando a série entrou na minha lista das dez melhores de 2025.
Nos dois casos, os protagonistas se parecem muito, especialmente porque acreditam no poder da escrita para revelar a corrupção e trazer à luz mistérios não resolvidos. Além disso, tanto o narrador sem nome de Bradbury quanto Lee Raybon (Ethan Hawke) querem uma única coisa: ser reconhecidos pelo que fazem.
A segunda temporada começa justamente aí. Lee recebe o prêmio de melhor jornalista de Tulsa pela reportagem que desvendou a corrupção e os crimes explorados na primeira temporada. O sucesso, porém, dura pouco. Sob efeito de alucinógeno, ele faz um discurso atrapalhado, e é dessa sequência que nascem as duas tramas da temporada.
De um lado, a relação com a filha, Francis (Ryan Kiera Armstrong), que assiste ao vexame do pai. Do outro, Ginger (Betty Gilpin), uma defensora pública que surge sozinha num vestido azul que parece saído de O Diabo Veste Azul e que, quase sem querer, assume o papel de femme fatale da vez.
Essas duas tramas, por si só, já sustentariam uma boa temporada. Mas The Lowdown ainda traz para a história Lee Raybon Sr. (Tommy Lee Jones), o pai que reaparece depois de 17 anos e desenterra todas as vulnerabilidades do filho. O arco familiar vira um triângulo entre filha, pai e avô, cada um tentando resolver as próprias questões.
Tudo isso convive bem com o mistério principal: Mekko, um ex-cliente de Ginger, desaparece da prisão onde cumpria pena, e, quando Lee vai visitá-lo, levam até ele outro homem dizendo ser Mekko. É o ponto de partida para os dois tentarem descobrir onde ele está e o que existe por trás desse sumiço.
Tudo isso transcorre no seu próprio ritmo, porque The Lowdown não tem pressa de mostrar as cartas. Mesmo quando os episódios se desviam para histórias paralelas de personagens coadjuvantes, a série revela narrativas tão interessantes quanto a principal.
Um noir à luz do dia
É aí que The Lowdown conversa com os grandes clássicos do gênero, especialmente Chinatown. Assim como o filme de Roman Polanski, é um noir à luz do dia, em que a corrupção não se esconde em becos escuros, mas sob o sol de uma cidade aparentemente tranquila. E, como Jake Gittes, Lee é um investigador que não sabe a hora de parar e descobre, cedo ou tarde, que os segredos mais difíceis de encarar estão dentro de casa.
A diferença é que Harjo troca o fatalismo de Polanski por humor e afeto, e é isso que faz a série soar original mesmo quando ecoa os clássicos.
A segunda temporada começa com Lee finalmente reconhecido e passa o resto do tempo mostrando que o reconhecimento não resolve muita coisa. Entre o caso de Mekko, a filha que passa a vê-lo de outro jeito e o pai que volta para acertar contas, Lee precisa escolher entre a história que quer contar e as pessoas que estão ao seu lado.
Como o narrador de Bradbury, ele acredita que escrever pode consertar o mundo. The Lowdown sugere que, antes disso, talvez seja preciso consertar o que está em casa. E isso faz dela, de novo, uma das melhores séries do ano.


Deixe um comentário