“O Diabo Veste Azul” e o sonho americano que não era para todos

O Diabo Veste Azul chega para o Grandes Clássicos de novembro.

Assisti a O Diabo Veste Azul poucos dias depois de Faça a Coisa Certa. Não sei dizer se estou forçando uma conexão que não existe, mas sinto que os dois filmes — ainda que em polos completamente diferentes em termos de gênero — tratam da mesma utopia do sonho americano: aquela em que todas as pessoas são iguais e, por viverem em um país democrático, têm direitos e oportunidades igualmente distribuídos.

O discurso é lindo quando escrito em documentos como a Constituição e a Declaração de Independência. Na prática, a história é outra. Basta olhar para Ezekiel “Easy” Rawlins (Denzel Washington, brilhante como sempre), o protagonista do filme: um herói de guerra cujo maior sonho era comprar a casa própria. Agora desempregado, aceita qualquer tipo de trabalho que possa ajudá-lo a pagar a hipoteca.

Por causa dessa situação, Easy escuta qualquer oferta e aceita sem medir as consequências. Quando DeWitt Albright (Tom Sizemore) lhe oferece cem dólares para encontrar uma garota branca desaparecida, Daphne Monet (Jennifer Beals), que pode estar escondida em uma região majoritariamente negra de Los Angeles, ele parte atrás de um dinheiro que parece fácil. Mal sabe que está sendo sugado para uma rede de mentiras, conspiração e perigo.

Adaptado do livro homônimo de Walter Mosley, lançado em 1990, e dirigido por Carl Franklin em 1995, O Diabo Veste Azul retrata a cultura negra dos anos 1940, dos bares clandestinos às comunidades que começavam a se formar em bairros específicos da cidade. Para além disso, é um noir bem construído, com personagens que vivem à margem de uma sociedade desigual e racista, enfrentando estruturas de poder sustentadas pelo dinheiro e pela influência que ele compra.

E o principal mistério do filme está justamente aí — algo que Rawlins demora a compreender, e nós, como espectadores, também. Isso é importante porque Easy não é um detetive particular formado, como o personagem de Jack Nicholson em Chinatown. É um ex-mecânico de aeronaves que perdeu o emprego e precisou se tornar investigador para pagar as contas e, assim, poder chegar em casa depois de um longo dia, sentar na varanda e sentir algum prazer com a grama cortada e o jardim bem cuidado, observando o vai e vem do bairro.

Conforme a trama avança e o leva ao submundo de uma Los Angeles pouco conhecida, o perigo aumenta e Easy chama um antigo parceiro, Mouse (Don Cheadle). Ele rouba a cena nos quase vinte minutos em que aparece, de um jeito que torna sua presença inesquecível ao fim do filme — mesmo diante da atuação impecável de Denzel Washington do começo até o final.

E, apesar do labirinto que constrói em torno do mistério, O Diabo Veste Azul nunca se perde na própria narrativa. A narração de Easy ajuda nesse sentido, nos informando sobre seus próximos passos e o que pretende fazer. Ainda que o mistério seja interessante, no noir ele costuma ser o que menos importa. O que mais conta é a atmosfera e, principalmente, as relações entre os personagens — tão genuínas que é como se eles existissem para além daqueles quadros.

O sonho americano tem um preço

E é aí que o filme fecha o círculo que abriu. Porque a casa de Easy, aquela varanda e aquele jardim nunca foram apenas um cenário. São a versão possível do sonho americano para um homem negro em 1948 — e o filme inteiro é sobre o que ele precisa atravessar para não perdê-los.

Easy não vira detetive por vocação nem por justiça. Vira porque a hipoteca vence. O sonho existe, está escrito, mas, para alguns, ele cobra um preço que a Constituição não menciona.

O Diabo Veste Azul está disponível para aluguel em plataformas digitais.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *