Ao terminar de assistir a Rose, exibido no Festival do Rio, duas coisas vêm imediatamente à mente, e ambas são até óbvias. A primeira é que o filme nos obriga a refletir sobre os privilégios dos homens sobre as mulheres. A segunda é que Sandra Hüller merece ser colocada no olimpo dos grandes atores do nosso tempo, ao lado de nomes como Meryl Streep, Daniel Day-Lewis e Ellen Burstyn — para citar alguns que me vieram à cabeça sem pensar muito.
A interpretação de Hüller como Rose, uma mulher que vive como homem escondida sob roupas masculinas, é uma das melhores coisas que pude ver no cinema neste ano, e rendeu a ela o Urso de Prata de melhor atuação no Festival de Berlim. Dirigido pelo austríaco Markus Schleinzer, Rose é inspirado em histórias reais de mulheres que viveram como homens na Europa e se passa no fim da Guerra dos Trinta Anos, na Alemanha do século 17. Rose é uma ex-soldado que, depois do conflito, assume a identidade de um soldado morto e, com ela, o direito a uma fazenda abandonada numa pequena aldeia protestante.
Os moradores desconfiam dela desde o início, não por ser mulher, mas por ser forasteira. Rose só conquista a confiança da aldeia quando mata um urso e salva os vizinhos. Com isso, um proprietário de terras aceita entregar a ela parte da sua fazenda, desde que ela se case com a filha dele, Suzanna (Caro Braun). E há um porém: se Suzanna não engravidar e o casal não tiver um herdeiro, o acordo é desfeito e a terra volta para o pai.
Há mais liberdade nas calças
É aí que Rose deixa de ser apenas a história de uma mulher que se disfarça para sobreviver. Para garantir a terra, ela entra exatamente no mesmo jogo que a obrigou a esconder quem é: um acordo entre homens, no qual uma mulher é parte do negócio. Suzanna vai para o casamento como garantia de uma herança, do mesmo jeito que poderia ter acontecido com a própria Rose se ela não tivesse vestido as calças. Em certo momento, Rose resume a escolha que fez: há mais liberdade nas calças. Schleinzer não deixa a frase soar como vitória. A liberdade existe, mas só porque ela passa a ocupar o lugar de quem detém o poder.
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É uma sociedade sem espaço para a diferença, e a fotografia em preto e branco ajuda a tornar isso ainda mais palpável. Os quadros parecem pinturas de uma terra arrasada pela guerra, e a ausência de cor acaba sublinhando a falta de alma e de empatia daquele mundo. Ninguém ali parece capaz de olhar para o outro sem desconfiança, e quem é diferente precisa se esconder para sobreviver.
É nesse ambiente que Hüller constrói Rose quase sem baixar a guarda, nem mesmo quando está sozinha. A cicatriz de bala no rosto, a postura rígida, a voz contida: tudo nela parece pensado para não ser descoberta. Por isso, quando algo parecido com felicidade aparece na vida de Rose, ao lado de Suzanna, o pouco que ela deixa transparecer ganha uma força enorme. E Caro Braun, uma das revelações do filme, sustenta muito bem essa relação.
Paciência recompensada
Se há algo que me incomodou em Rose, foi o ritmo. Mesmo com pouco mais de uma hora e meia, o filme parece mais longo do que é. Schleinzer aposta em planos demorados, câmera distante e numa narradora que conta a história de fora, o que reforça o tom de fábula, mas também mantém o espectador a uma certa distância. É uma escolha coerente com o mundo frio que o filme retrata, só que, em alguns momentos, a narrativa se arrasta mais do que deveria.
Ainda assim, Rose guarda para o final um desfecho seco e doloroso, que faz valer a paciência. No fim, as duas ideias óbvias do começo continuam lá. Mas o filme vai além delas ao mostrar que o privilégio dos homens não está só no que eles podem fazer. Está também no que uma mulher precisa deixar de ser para ter acesso a ele.


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