Vidas Amargas (East of Eden, no original), que Elia Kazan dirigiu em 1955 a partir do clássico de John Steinbeck, revelou James Dean ao mundo — o ator morreria meses depois do lançamento — e adaptava apenas a parte final do livro. A trama se concentrava em dois irmãos, Cal e Aron, disputando a atenção e o amor do pai, Adam. As alusões à história bíblica de Caim e Abel estavam por toda parte, e Kazan nos convidava a testemunhar o jogo de contrastes entre eles.
Agora, pouco mais de 70 anos depois, a neta do diretor, a atriz e roteirista Zoe Kazan, volta a East of Eden em uma minissérie de sete episódios para a Netflix. Ao contrário do avô, ela percorre as várias gerações do romance, e sob uma perspectiva bem diferente. A disputa entre irmãos continua lá, agora com Adam (Christopher Abbott) e o meio-irmão, Charles Trask (Mike Faist), brigando pela preferência do pai, Cyrus (Tracy Letts, ótimo como sempre), um veterano da Guerra Civil conservador, violento e hipócrita.
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Tudo isso faz parte do jogo, mas a série se interessa sobretudo pelas figuras paternas. Na América do pós-guerra, são elas a autoridade máxima, a que aprisiona os filhos e decide o futuro deles. É nesse contexto que entra Cathy Ames (Florence Pugh, impressionante mais uma vez), que aparece ensanguentada na porta dos irmãos Trask e muda para sempre a vida deles e de todos ao redor.
Versão de East of Eden humaniza vilã
O interesse de Zoe Kazan está claramente em Cathy. No filme do avô, ela aparece como uma grande vilã, fria, vingativa, a mãe que abandonou os filhos. Na série, ganha traços humanos e uma história que ajuda a entender as suas decisões. Assim como os irmãos Trask, Cathy cresceu sob um pai autoritário, que batia nela dia sim, dia não. Até onde alguém nessa situação estaria disposto a ir para conquistar a própria liberdade, ser dona da própria vida e do próprio corpo?
Essa inquietação está nos olhos dela. Garth Davis, que dirige os quatro primeiros episódios, enquadra o olhar de Cathy deitada, gravemente ferida, carregado de revolta, desconfiança e repulsa. É essa agonia que a move, e a cada cena em que ela aparece é possível sentir que qualquer coisa pode acontecer.
Não se trata de absolvição
Mas tentar entender as ações de Cathy não significa inocentá-la. Zoe Kazan tem plena consciência da maldade e da capacidade de manipulação da personagem. Estamos falando de uma mulher que vai para a cama com o irmão do marido justamente para colocar um contra o outro. Ou, ainda mais grave, de alguém disposta a dilacerar o próprio corpo para matar um filho que sequer nasceu.
Só que há o outro lado da história, e é para ele que Kazan quer chamar a nossa atenção. Adam vive repetindo que os dois vão encontrar na Califórnia a casa onde serão felizes. Cathy nunca pôde escolher se queria mesmo se mudar. É como se vivesse uma vida por obrigação, ainda que parte desse caminho tenha nascido das próprias escolhas, ou das mentiras que precisou inventar para continuar sobrevivendo.
No romance, Steinbeck não deixa dúvida: para o narrador, Cathy é um monstro, alguém que já nasceu assim. Zoe Kazan provoca o espectador justamente a partir dessa ideia. O que significa ser uma pessoa ruim? Nascemos monstros ou nos tornamos um ao longo da vida, depois de tudo o que somos obrigados a atravessar?
É essa pergunta que está no centro da série. Ao longo dos sete episódios, East of Eden às vezes divaga por outros terrenos e perde de vista o seu eixo emocional. Ainda assim, Zoe Kazan faz um ótimo trabalho ao traduzir as questões morais que o avô abordou apenas em parte, e das quais o texto de Steinbeck está repleto.
No fim, o que se aprende assistindo a East of Eden, ao menos a essa versão, é que a vida é complexa demais para julgarmos as ações dos outros com tanta facilidade. Há camadas difíceis de penetrar. E Zoe Kazan, setenta anos depois do avô, teve a coragem de tentar.


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