“A Mulher sem Cabeça” faz da dúvida sua protagonista

a mulher sem cabeça

A Mulher sem Cabeça, escrito e dirigido por Lucrecia Martel, é um daqueles filmes que exigem atenção absoluta. Não porque a história seja complicada, mas porque quase tudo o que realmente importa acontece fora do óbvio. Está nos silêncios, nos enquadramentos, nos pequenos gestos e naquilo que a diretora escolhe não explicar.

É um cinema que confia plenamente no espectador. Martel nunca entrega respostas fáceis nem sublinha as emoções de seus personagens. Em vez disso, constrói um ambiente de permanente desconforto, no qual a dúvida passa a fazer parte da própria experiência de assistir ao filme.

Mais uma vez ambientado na região rural de Salta, distante de Buenos Aires, como já acontecia em O Pântano (2001) e A Menina Santa (2004), o filme volta a explorar os contrastes entre privilégio e exclusão. No centro da narrativa está Verónica (María Onetto), uma dentista bem-sucedida que, em um instante de distração ao tentar atender o celular, atropela alguma coisa em uma estrada deserta.

Leia também
“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” expõe a reação humana ao desconhecido

No momento do acidente, Martel praticamente suspende o tempo. A câmera permanece imóvel por alguns segundos, como se também esperasse a decisão de Verónica. O esperado seria parar o carro, prestar socorro, chamar ajuda. Mas ela apenas olha pelo retrovisor, recoloca os óculos escuros e segue dirigindo.

A diretora jamais confirma aquilo que parece ser a pergunta mais importante do filme. Verónica atropelou um cachorro ou um garoto indígena que brincava na beira da estrada? O patriarcado que cerca a personagem insiste na primeira versão, tratando o episódio como um simples acidente. Martel, porém, espalha pequenas pistas ao longo da narrativa que apontam para outra possibilidade. E talvez justamente por nunca oferecer uma resposta definitiva, a diretora deixe claro que essa nunca foi a verdadeira questão.

Apesar dos indícios, A Mulher sem Cabeça vai revelando que nada acontecerá com Verónica. A impunidade parece inevitável. Pouco importa o que realmente ocorreu naquela estrada quando a estrutura social ao redor da personagem trabalha continuamente para apagar qualquer vestígio de culpa.

A partir desse momento, Verónica passa a viver em um estado permanente de deslocamento. Como se recusasse a aceitar a própria realidade, ela parece esquecer detalhes básicos da rotina, da profissão e até da própria identidade. Enquanto isso, todos ao seu redor fazem o possível para que a vida continue normalmente, como se aquele acontecimento jamais tivesse existido.

O que escolhemos não enxergar

É nesse ponto que o filme amplia sua discussão. Os personagens que vivem à margem aparecem o tempo inteiro, mas raramente ocupam o centro da atenção. Há trabalhadores invisibilizados, pessoas pedindo algum serviço em troca de comida e crianças que atravessam a narrativa quase sempre despercebidas. Martel parece sugerir que alguns corpos são vistos, enquanto outros simplesmente desaparecem sem deixar rastros.

Essa mesma lógica atravessa a forma como a diretora filma. A câmera permanece muito próxima de Verónica, mas nunca oferece conforto ao espectador. Frequentemente observa os personagens através de espelhos, portas, corredores e enquadramentos parciais, como se estivéssemos sempre olhando uma realidade da qual jamais conseguimos participar completamente.

Essa escolha ganha um significado ainda mais forte na sequência final. Durante uma confraternização familiar, Verónica entra no salão enquanto Martel permanece distante, observando tudo pela fresta de uma porta ou refletido em um espelho escurecido. É como se a própria diretora recusasse compartilhar daquele ambiente e da normalidade artificial construída por aquela família.

A Mulher sem Cabeça certamente não é um filme fácil. Quando foi exibido no Festival de Cannes, dividiu opiniões justamente por sua narrativa silenciosa, contemplativa e avessa às convenções. Martel nunca se interessa pela investigação do acidente nem pela revelação de uma verdade definitiva. O que importa são as consequências morais daquele gesto e, principalmente, aquilo que uma sociedade escolhe esquecer.

Talvez seja justamente por confiar tanto na inteligência do espectador que Lucrecia Martel realiza um dos filmes mais inquietantes do cinema latino-americano contemporâneo. O verdadeiro mistério nunca esteve em descobrir quem foi atropelado. Está em compreender como a culpa, os privilégios e a desigualdade conseguem transformar um crime em algo que, pouco a pouco, deixa simplesmente de existir.

A Mulher sem Cabeça (La Mujer sin Cabeza, 2008)

A Mulher sem Cabeça (La Mujer sin Cabeza, 2008)
4 5 0 1
Direção: Lucrecia Martel • Roteiro: Lucrecia Martel • Elenco: María Onetto, Claudia Josefina, César Bordón, Daniel Genoud, Guillermo Arengo e Inês Efron • Disponível: Aluguel • Duração: 87 minutos
Direção: Lucrecia Martel • Roteiro: Lucrecia Martel • Elenco: María Onetto, Claudia Josefina, César Bordón, Daniel Genoud, Guillermo Arengo e Inês Efron • Disponível: Aluguel • Duração: 87 minutos
4,0 rating
4/5
Total Score

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *