“Youth” faz da meia-idade uma nova adolescência

Sarah Horgan completa trilogia com Youth

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Youth atiçou a minha curiosidade mesmo eu nunca tendo assistido a nenhuma série criada por Sharon Horgan, autora de produções muito bem recebidas pela crítica, como Catastrophe e Bad Sisters. A nova série, que estreou em setembro na HBO Max, trata das questões enfrentadas por uma mulher de 50 anos, divorciada e que, apesar de estar na chamada meia-idade, ainda pode ter todo o tempo pela frente. É curioso como Horgan usa o título para mexer com o nosso imaginário. À primeira vista, “youth”, juventude, soa como ironia. Mas, ao acompanharmos Alex, a protagonista vivida pela própria criadora, atravessando essa fase da vida, a palavra começa a fazer cada vez mais sentido.

Ao mesmo tempo, Youth me lembrou muito Fleabag. As duas são comédias, claro, e podem ser assistidas como tal. Mas são tão desconcertantes na maneira real e visceral de contar suas histórias que, muitas vezes, as risadas dão lugar àquela expressão de surpresa diante de algo tão verdadeiro que não conseguimos explicar.

Quando a temporada começa, Alex é uma agente literária que vive em Londres e precisa lidar com uma série de pressões inesperadas. Ela imaginava que enfrentaria a síndrome do ninho vazio com a ida do filho, Ruari (Aran Murphy, filho de Cillian Murphy na vida real e a cara do pai), para a universidade. Mas, logo no primeiro dia de aula, ele resolve voltar para casa e desistir, sem explicar por quê.

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Para completar, o ex-marido, Frank (Robbie Gee), avisa que vai passar um tempo no Canadá a trabalho, e os pais de Alex, já idosos, também passam a exigir cuidados. No meio desse furacão, ela precisa agradar a chefe, Sam (Sharlene Whyte), para manter a posição respeitada que conquistou na empresa, enquanto tenta alguma conexão amorosa com os pretendentes que pintam aqui e ali.

E vamos combinar uma coisa: mesmo que Alex tivesse de fato vivido o ninho vazio, isso não significaria menos obrigações, né? Basta ver a postura do pai diante do que acontece com o filho. Em vez de tentar entender o que levou Ruari a largar a faculdade, Frank continua preocupado apenas consigo mesmo e com o trabalho no Canadá. Youth não deixa que conflitos como esse sequestrem a narrativa, mas é admirável como a série expõe essa divisão desigual sem precisar gritar que está fazendo isso.

Onde Youth realmente triunfa é ao sublinhar as inseguranças de Alex, seja num encontro com Patrick (Rupert Friend), um antigo caso, seja lidando com os dramas do filho adolescente, com as pressões do trabalho e, principalmente, com as incertezas que a própria idade traz.

A franqueza que a TV costuma evitar

Em determinado momento, Alex percebe que está sangrando, o que é estranho, porque ela não menstrua há mais de um ano. Isso a faz pensar em tudo o que pode estar acontecendo com o próprio corpo, sendo a hipótese mais grave um câncer. A série fala de menopausa sem rodeios, e é esse tipo de franqueza que torna Youth diferente, ainda que parecida, de outras produções que vieram antes dela.

Youth não fala de juventude como idade, mas como estado: o de quem ainda não sabe direito o que quer, erra, recomeça e se surpreende com o próprio corpo. Alex vive tudo isso aos 50, só que agora as dúvidas vêm acompanhadas de exames, pais que precisam de cuidado e um filho de volta ao quarto de infância.

Horgan não trata essa fase como despedida, nem como uma segunda adolescência romantizada. Em uma televisão que ainda costuma tirar de cena as mulheres depois de certa idade, Youth faz o contrário. Coloca Alex no centro, com desejo, medo e pressa, e lembra que, sim, ainda há muito tempo e o que viver pela frente.

Youth (HBO Max, 2026)

Youth (HBO Max, 2026)
3 5 0 1
3,0 rating
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