Um programa construído a partir de um formato histórico da televisão americana — e que influenciou tantos outros ao redor do mundo, incluindo Jô Soares no Brasil — chega ao fim no próximo 21 de maio: o The Late Show. Particularmente, é uma perda que ainda vou sentir por algum tempo. Durante anos, sentei diariamente em frente à televisão para assistir aos monólogos e entrevistas conduzidos por Stephen Colbert — quase sempre no dia seguinte à exibição original. Agora, isso não acontecerá mais.
Talvez nem valha tanto a pena mergulhar profundamente nas questões de bastidores que envolveram o cancelamento do The Late Show pela Paramount, conglomerado comandado por David Ellison, e em toda a rede de relações políticas e empresariais que aproxima a família Ellison de Donald Trump — especialmente no momento em que o presidente americano busca ampliar sua influência sobre os limites do que a televisão americana pode criticar, comentar ou exibir.
Stephen Colbert encontra o tom
Digo isso porque o mais importante aqui é celebrar os dez anos em que Stephen Colbert esteve à frente do The Late Show, assumindo o lugar de David Letterman após sua aposentadoria. Antes disso, Colbert já vinha de um enorme sucesso no The Colbert Report, programa em que interpretava uma caricatura de comentarista republicano e conservador. Durante esse período na Comedy Central, construiu sua identidade a partir da ironia e do sarcasmo político, culminando no famoso discurso realizado no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, em 2006, durante o governo George W. Bush.
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Foi naquele momento que Colbert se consolidou como uma figura ainda maior da televisão americana. O que fazia era mais complexo do que apenas interpretar um conservador: ao exagerar esse personagem, revelava justamente o quanto a sociedade americana carregava traços profundamente conservadores, mesmo entre aqueles que acreditavam no contrário. Ao encerrar o The Colbert Report e aceitar o convite para assumir o The Late Show, Stephen Colbert abandona o personagem e passa, finalmente, a falar como ele mesmo.
Mesmo tropeçando no início, enquanto tentava encontrar o tom ideal para o programa ao lado de sua equipe de roteiristas, Colbert transformou seus monólogos — e o show como um todo — em comentários inteligentes, rápidos e sagazes sobre os temas que dominavam o debate público. A eleição de Donald Trump, em 2016, tornou essa direção ainda mais clara. Pouco tempo depois, o The Late Show assumiu a liderança de audiência no horário e se consolidou como o programa ideal para quem queria compreender as entrelinhas da política americana e os impactos dela no resto do mundo.
The Late Show político
Curiosamente, Colbert já revelou em entrevistas recentes que inicialmente não queria que o The Late Show se tornasse tão político. Mas a eleição de Donald Trump acabou mudando não apenas o rumo do país, como também o próprio formato do programa. Aos poucos, o monólogo deixou de ser apenas um espaço de humor e passou a funcionar quase como um editorial diário sobre os absurdos da política americana.
Quando a CBS anunciou o cancelamento do programa, ainda em julho de 2025, algo curioso aconteceu: o The Late Show pareceu ganhar uma nova energia. As piadas ficaram mais ácidas, os comentários mais diretos e Colbert passou a soar ainda mais livre diante das câmeras, quase como alguém que já não precisava medir consequências. Era como se o programa começasse, aos poucos, a revelar o tamanho da falta que faria.
Há uma sensação estranha em assistir aos episódios finais do The Late Show. Não apenas porque Stephen Colbert parece mais livre diante das câmeras, mas porque o programa carrega a consciência de estar encerrando algo maior do que ele mesmo: uma era em que o late night ainda ajudava a organizar o debate cultural e político americano.


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