A pandemia de COVID-19 nos obrigou a encarar a possibilidade de não sair de casa como algo concreto. Saiu de cena a ideia hipotética de não saber o que acontece na rua, no mundo, e entrou a realidade da casa como fortaleza — segura, abastecida, pronta para sustentar qualquer nível de sobrevivência. A Última Casa, novo suspense da Netflix dirigido por Louis Leterrier (Velozes & Furiosos 10) e estrelado pelos indicados ao Oscar Wagner Moura e Greta Lee, tenta transportar esse conceito para o gênero apocalíptico. Mas a ideia não sai do papel.
Na prática, A Última Casa não funciona em absolutamente nada. E o problema não é apenas a confusão da trama — é que o filme sequer parece confiar naquilo que está contando. Wagner Moura e Greta Lee interpretam os pais de duas crianças que, de um dia para o outro, percebem que não podem mais sair de casa: uma chuva misteriosa tranca a família, e a vizinhança inteira, dentro das próprias residências. É frustrante acompanhar dois atores desse calibre presos a um material que não lhes oferece nada.
Porque a premissa nunca se sustenta. O filme não consegue estabelecer que tipo de ameaça existe lá fora e, pior, desperdiça a única coisa que tinha em mãos: o convívio familiar forçado. Não há dramaticidade, não há dinâmica, não há nada que torne aquela convivência minimamente verdadeira. O resultado é um suspense que não desperta claustrofobia, urgência ou perigo — ao contrário, transforma em confortável tudo o que aparece na tela.
Duas horas sem nenhuma tensão
Em nenhum momento de suas quase intermináveis duas horas, A Última Casa consegue fazer daquela casa um lugar habitado por uma família de verdade. E como acompanhamos boa parte da rotina enclausurada, o filme só fica mais arrastado e entediante. Sem falar no terceiro ato, que parece uma daquelas alucinações que a inteligência artificial comete de vez em quando: monstros marinhos surgem para dar algum movimento à narrativa e, minutos depois, desaparecem em meio a uma compaixão humana completamente forçada. E ainda querem fazer uma continuação disso. Está sobrando dinheiro para investir em coisa ruim, pelo jeito. Não há crise na Netflix.
No fim, A Última Casa não entrega mensagem nenhuma. Não serve como alegoria dos tempos de pandemia, que conhecemos bem demais, nem como ficção científica capaz de provocar algum debate sobre o convívio entre humanos e seres de outros planetas — em qualquer forma que eles assumam. Não há absolutamente nada ali, nem sequer uma lição de moral, que se possa extrair. Pena que não seja possível recuperar o tempo perdido.


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