Corrida dos Bichos, dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, é uma ficção científica que claramente dialoga com franquias como Jogos Vorazes e Maze Runner. Não é novidade que esse tipo de distopia invente competições para construir alegorias sobre desigualdade e a maneira como as elites conseguem preservar seus privilégios mesmo quando o mundo parece estar acabando. Aqui, pode-se dizer que esse é o popular “jeitinho brasileiro”.
O filme se mostra ambicioso na construção do seu universo. Apresenta um Rio de Janeiro completamente sem água e tomado pela areia, uma cidade que virou deserto. Tudo o que era bom e bonito acabou. O que era ruim persistiu. Nesse cenário, o jogo do bicho ganha uma nova roupagem: os moradores menos favorecidos entram na disputa como uma espécie de avatar — gato, porco, touro, leão — e correm pela sobrevivência no que restou da cidade.
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Os bichos são controlados por jogadores, alguns deles integrantes da Cúpula. Não é um cenário muito diferente daquele que já conhecemos no Rio de hoje, mesmo sem nenhuma catástrofe ambiental. Um desses jogadores é Leon (Bruno Gagliasso, que não faz o menor esforço para esconder que é o vilão), vencedor recorrente das corridas e candidato a Chefe da Cúpula. Do outro lado estão os bichos. Mano (Matheus Abreu) começa a história tentando impedir que o jogo chegue à favela onde vive, mas acaba sendo arrastado para dentro da disputa quando a irmã é colocada em uma das corridas.
O resultado lembra um reality show televisionado, com direito a um diretor de prova (Rodrigo Santoro) e a uma narradora (Anitta) distribuindo comentários, rimas e piadas infames ao longo das disputas. E talvez seja justamente aí que a coisa comece a desandar. Com três diretores dividindo o comando, Corrida dos Bichos nunca encontra uma identidade própria. Não há uma assinatura clara nem um olhar capaz de organizar todas aquelas ideias. Cada sequência parece responder a um filme diferente. No fim, nenhuma delas prevalece.
Uma distopia que nunca se completa
Toda distopia precisa convencer o espectador de que aquele mundo poderia existir. Corrida dos Bichos convence pela estética, mas não pela lógica que sustenta esse universo. O filme apresenta uma Cúpula que organiza as corridas, jogadores que controlam os competidores e uma população submetida às regras daquele espetáculo. Mas quase nunca explica como essa estrutura funciona. O jogo acontece com a conivência do governo? O Estado ainda existe? A Cúpula ocupa o seu lugar ou apenas se aproveita do vazio deixado por ele? São perguntas fundamentais para compreender esse mundo, mas que o roteiro simplesmente deixa de lado. E esse é o principal problema do filme.
A comparação com Jogos Vorazes é inevitável, mas vale lembrar também de Cidade de Deus e Tropa de Elite. Embora pertençam a gêneros completamente diferentes, esses filmes deixam muito claro como funcionam os sistemas que aprisionam seus personagens. Em Corrida dos Bichos, as peças do tabuleiro estão todas ali, mas raramente entendemos como elas se conectam. A consequência é uma distopia que impressiona pela superfície e pelo caráter de superprodução, mas nunca ganha profundidade.
Essa indefinição acaba afetando também os personagens. Mano, por exemplo, inicia a história rejeitando a corrida por causa do trauma envolvendo o pai (Seu Jorge). Quando finalmente entra no jogo, esse conflito praticamente desaparece. O mesmo acontece com Nadine (Isis Valverde), a jogadora responsável por controlá-lo. O roteiro tenta construir uma relação entre os dois, mas ela nunca encontra sustentação dramática. Seu passado aparece apenas como uma informação necessária para justificar suas ações, e não como uma experiência capaz de transformá-la em uma personagem mais complexa.
É justamente isso que falta em Corrida dos Bichos: humanidade. Não basta reunir um elenco cheio de nomes conhecidos nem construir um universo visualmente interessante se os personagens permanecem distantes o tempo inteiro. No fim, o filme corre tanto para chegar à próxima prova que esquece de fazer o espectador se importar com quem está disputando a corrida. E, quando isso acontece, nem mesmo a força da premissa consegue sustentar a narrativa.


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