Assisti Devoradores de Estrelas muito depois de seu lançamento nos cinemas e, portanto, longe de todo o entusiasmo que cercou o filme. Com certa neutralidade — e uma boa dose de curiosidade — acompanhei a história tentando entender por que tantos o apontavam como um dos grandes exemplares recentes da ficção científica. A resposta, para mim, nunca chegou.
Dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, responsáveis por Homem-Aranha no Aranhaverso e Uma Aventura LEGO, e baseado no best-seller de Andy Weir, autor de Perdido em Marte, Devoradores de Estrelas demora mais de uma hora e meia para finalmente apresentar uma sequência realmente empolgante. E ela sequer acontece no espaço: trata-se de Sandra Hüller cantando Sign of the Times, de Harry Styles, em um karaokê.
Até ali, o filme estrelado por Ryan Gosling se mostra bastante irregular. O ponto de partida é promissor: Grace acorda sozinho em uma nave espacial, sem memória de quem é ou do que está fazendo ali. Aos poucos, as lembranças retornam e revelam que ele não é um astronauta, mas um professor recrutado para ajudar a humanidade a enfrentar uma ameaça capaz de comprometer a sobrevivência do planeta.
O problema surge quando a narrativa passa a alternar constantemente entre passado e presente. Os saltos entre as duas linhas do tempo quebram o ritmo da história e fazem o filme perder parte da força que o seu mistério inicial tinha. Mesmo com o carisma de Ryan Gosling — que mais uma vez demonstra por que continua sendo uma das grandes estrelas de Hollywood — a estrutura raramente encontra equilíbrio.
A situação se agrava com o excesso de humor. Seja nas cenas de comédia física, com Grace tropeçando pela nave enquanto os sistemas automatizados reagem ao caos ao seu redor, seja nos diálogos com Rocky, o alienígena que encontra durante a missão, o filme parece constantemente receoso de levar a própria premissa a sério.
Existe um filme melhor escondido aqui
E é curioso porque existe uma ideia muito interessante escondida ali.
Quando Grace tenta estabelecer comunicação com Rocky, Devoradores de Estrelas evoca inevitavelmente A Chegada. Não apenas pelo desafio de construir uma linguagem comum entre espécies diferentes, mas também por algumas escolhas visuais que lembram o filme de Denis Villeneuve. A diferença é que, enquanto A Chegada transforma esse contato em algo muito mais interessante, aqui ele acaba servindo principalmente como combustível para piadas e situações cômicas.
Há também uma história muito mais interessante acontecendo na Terra. Sempre que Eva Stratt, personagem de Sandra Hüller, entra em cena, fica a sensação de que existe um filme melhor tentando acontecer ali. Se o roteiro de Drew Goddard, baseado na obra de Andy Weir, dedicasse mais tempo a esse núcleo, talvez encontrasse um equilíbrio melhor entre espetáculo, drama e humor.
Ainda assim, Devoradores de Estrelas funciona bem como entretenimento. Existem mensagens sinceras sobre amizade, cooperação e sacrifício, além de uma visão otimista do encontro com o desconhecido que contrasta com tantas narrativas de invasão extraterrestre.
O problema é que o filme nunca parece totalmente confortável com aquilo que quer ser. Entre a comédia espacial e a ficção científica de grandes ideias, acaba sem abraçar completamente nenhum dos dois caminhos. O resultado é um filme agradável e divertido em vários momentos, mas que está longe de justificar o status de obra definitiva do gênero que tantos lhe atribuíram.


Deixe um comentário