Em “A Odisseia”, Nolan vai além do épico

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A grandiosidade do poema “A Odisseia” de Homero sempre representou um desafio para quem quisesse levá-lo ao cinema. Trata-se de uma das obras que mais influenciaram a literatura ocidental e, para um épico dessa escala, poucos diretores teriam a capacidade de preservar sua dimensão sem perder de vista o lado humano da história. Christopher Nolan é um deles.

Depois de filmar personagens cuja jornada ecoa, em diferentes níveis, a trajetória de Odysseus — da trilogia Batman a O Grande Truque —, Nolan compreende que o material que tem em mãos é vasto demais para caber em um único filme sendo, portanto, impossível contar tudo. É preciso fazer escolhas.

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Não é difícil entender por que A Odisseia parece uma história feita para ele. Os elementos nolescos estão por toda parte: o totem que Odysseus ganha de Penélope como lembrança de casa — e que ecoa os objetos de volta à realidade de A Origem — a tensão de Telêmaco, que cresce sem a figura do pai, tema recorrente desde a trilogia Batman, e o herói que parte em uma missão sem garantia de volta, como em Interestelar. Ideias escritas por Homero e que Nolan passou décadas reinterpretando, experimentando e refinando a própria forma.

Assim, A Odisseia se apresenta, ao longo de suas quase três horas, como uma narrativa fragmentada em episódios e diferentes linhas do tempo. Acompanhamos Odysseus (Matt Damon) durante a Guerra de Troia, sob o comando de Agamemnon (Benny Safdie), e depois em sua travessia de dez anos até Ítaca, onde Penélope (Anne Hathaway) e Telêmaco (Tom Holland) aguardam seu retorno.

Nesse percurso, Nolan utiliza a mitologia grega como matéria-prima para mostrar o quanto a viagem de volta se transforma em uma travessia marcada por desafios que colocam à prova a lealdade dos homens aos deuses e entre si. Figuras importantes surgem e desaparecem quase instantaneamente, como em um road movie ambientado no mar, deixando marcas profundas antes de seguirem seu caminho.

Ainda assim, não é a escala épica que torna A Odisseia realmente interessante.

A verdadeira força do filme está nas consequências da guerra. No Cavalo de Troia, apresentado como um presente aos inimigos, mas que sela o destino da cidade. É ali que nasce o trauma que acompanhará Odysseus durante toda a jornada de volta.

Tendo sido o mentor da ideia, ele passa a conviver com as atrocidades que testemunhou: homens sendo mortos indiscriminadamente, mulheres violentadas e uma cidade reduzida a ruínas. É nesse contexto que Atena (Zendaya) ganha uma dimensão inesperada. Mais do que uma deusa, ela funciona como a consciência de Odysseus. Surge nos momentos em que ele precisa confrontar aquilo que viveu e desaparece justamente quando prefere desviar o olhar.

Essa leitura encontra seu ápice no último ato, quando o protagonista elimina, um a um, os pretendentes de Penélope que tentavam tomar Ítaca — uma explosão tardia de sentimentos reprimidos durante anos.

Quando o épico pesa mais do que o humano

É justamente aqui que A Odisseia também encontra seus maiores tropeços.

O filme trata de heroísmo, guerra e das incertezas do retorno, mas a dimensão interior de Odysseus recebe menos espaço do que deveria. Nolan parece sentir a necessidade de manter a narrativa sempre em movimento, como se temesse perder a atenção do espectador.

O resultado é desigual. Há sequências que não produzem o impacto esperado, como o confronto contra os gigantes na floresta, cujas árvores aprisionam os homens. Outras terminam cedo demais, deixando a sensação de que poderiam ter sido desenvolvidas por mais tempo. A passagem por Circe talvez seja o melhor exemplo. Em uma participação impressionante, Samantha Morton surge e desaparece antes que sua personagem alcance toda a força dramática que consegue entregar com pouco tempo.

O mesmo acontece com parte do elenco de apoio. Lupita Nyong’o recebe tão pouco espaço que mal consegue deixar sua marca, enquanto Zendaya e Benny Safdie também acabam limitados pelo movimento da narrativa. Ainda assim, Nolan administra bem a escala da produção sem transformar seus personagens em meras peças do espetáculo, permitindo que cada ator encontre espaço para construir emoções genuínas.

No fim, A Odisseia consegue transmitir todo o peso da travessia de Odysseus. Não apenas a viagem física, mas o retorno impossível de alguém que volta para casa carregando tudo o que viu e fez durante a guerra – e com ele o peso de um ideal de civilização que um dia se imaginou. Christopher Nolan compreende que a verdadeira aventura nunca esteve nos monstros, nas sereias ou nos deuses. Ela sempre esteve na tentativa de continuar vivendo depois deles.

A Odisséia (The Odyssey, 2026)

A Odisséia (The Odyssey, 2026)
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Direção: Christopher Nolan • Roteiro: Christopher Nolan, baseado em “A Odisseia” de Homero • Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o, Samantha Morton, John Leguizamo, Zendaya, Charlize Theron, Jon Bernthal, Himesh Patel, Bill Irwin, Elliot Page, Benny Safdie, Corey Hawkins, Mia Goth • Disponível: Cinemas • Duração: 172 minutos
Direção: Christopher Nolan • Roteiro: Christopher Nolan, baseado em “A Odisseia” de Homero • Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o, Samantha Morton, John Leguizamo, Zendaya, Charlize Theron, Jon Bernthal, Himesh Patel, Bill Irwin, Elliot Page, Benny Safdie, Corey Hawkins, Mia Goth • Disponível: Cinemas • Duração: 172 minutos
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